Por Marco Aurelio Carone
O grupo de assessores dos candidatos até então compostos de jornalistas, publicitários, marketeiros e sociólogos, deveriam ser acrescidos de neurocientistas especialistas nas áreas comportamental e cognitiva. Basta ver o resultado das urnas, para constar o grande sucesso eleitoral dos candidatos que dominam este novo campo de batalha.
Percebe-se que os candidatos nem suas campanhas tiveram tempo para refletir sobre o que são “operações psicológicas” (OPsi), “lawfare”, “guerras de informação” e “ciberguerras”, especificamente em nossa atual etapa da era digital.
Como escrito no artigo “Warfighting 2040” (“Guerrear em 2040”), a natureza da guerra mudou. A maioria dos conflitos atuais permanece abaixo do limiar da definição tradicionalmente aceita pelo conceito de uma “guerra”, mas novas formas de guerra surgiram, como a Guerra Cognitiva (CW), segundo a qual a mente humana passa a ser agora considerada como um novo domínio da guerra.
Com o crescente papel da tecnologia e da sobrecarga de informações, os laços cognitivos individuais não serão mais suficientes para garantir uma tomada de decisão informada e oportuna, levando ao novo conceito de Guerra Cognitiva, que se tornou um termo recorrente na terminologia militar nos últimos anos.
Ela interrompe os entendimentos e reações comuns aos eventos de forma gradual e sutil, mas com efeitos nocivos significativos ao longo do tempo. A guerra cognitiva tem alcance universal, do indivíduo aos estados e organizações multinacionais.
Ela alimenta-se das técnicas de desinformação e propaganda voltadas para o esgotamento psicológico dos receptores de informação.E todos contribuem para isso, em diferentes graus, consciente ou subconscientemente, fornecendo conhecimento inestimável sobre a sociedade, especialmente sociedades abertas, como a brasileira.
Oferece aos adversários um meio de contornar o campo de batalha tradicional com resultados estratégicos significativos, que podem ser utilizados para transformar radicalmente as sociedades.Os instrumentos de guerra da informação, juntamente com a adição de “neuro-armas” adicionam-se a perspectivas tecnológicas futuras, sugerindo que o campo cognitivo será um dos campos de batalha de amanhã.
Essa perspectiva é ainda mais fortalecida pelos rápidos avanços dos NBICs (Nanotecnologia, Biotecnologia, Tecnologia da Informação e Ciências Cognitivas) e pela compreensão do cérebro. A OTAN- Organização do Tratado do Atlântico Norte, está investindo pesado nessas novas tecnologias, pois entende que precisa antecipar avanços nessas tecnologias, conscientizando-se sobre o verdadeiro potencial da Guerra Cognitiva ou CW.
Qualquer que seja a natureza e o objeto da guerra, ela sempre se resume a um choque de vontades humanas, e, portanto, o que define a vitória será a capacidade de impor um desejado comportamento em um público escolhido.
A OTAN já detém tecnológica para cinco domínios, ar, terra, mar, espaço e ciberespaço e encomendou estudos dirigidos pelo alto oficial da Marinha da França, o contra-almirante François duCluzel – reconhecendo a importância do sexto domínio operacional, ou seja, o Domínio Humano.
Segundo este estudo: “As capacidades cognitivas individuais e organizacionais serão doravante de suma importância devido à velocidade e volume de informações disponíveis no espaço de batalha moderno.
Se a tecnologia moderna mantém a promessa de melhorar o desempenho cognitivo humano, ela também mantém as sementes de sérias ameaças para as organizações militares.
Como as organizações são compostas por seres humanos, as limitações e preferências humanas afetam de forma importante o comportamento organizacional e os processos de tomada de decisão.
As organizações militares estão sujeitas ao problema da racionalidade limitada, mas essa restrição muitas vezes é negligenciada na prática.
Em um ambiente permeado pela tecnologia e sobrecarregado com informações, o gerenciamento das habilidades cognitivas dentro das organizações militares será fundamental, ao mesmo tempo que desenvolver capacidades para prejudicar as habilidades cognitivas dos oponentes será uma necessidade.
Em outras palavras, a OTAN precisará obter a capacidade de salvaguardar seu processo de tomada de decisão e interromper o do adversário.
Este estudo pretende responder às três seguintes finalidades:
1. Melhorar a conscientização sobre a Guerra Cognitiva, incluindo uma melhor compreensão dos riscos e oportunidades do relacionamento das novas tecnologias Cognitivas com a Mente Humana;
2. Fornece uma visão ‘fora da caixinha’ sobre a guerra cognitiva;
3. E fornecer argumentos de nível estratégico ao SACT quanto a recomendar, ou não, que a mente cognitiva humana seja considerada como um domínio operacional da OTAN. SACT é o Comandante Supremo Aliado da Transformação (SACT) é o comandante do Comando de Transformação Aliada (ACT) da Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN), responsável pelo Comitê Militar da OTAN – a mais alta autoridade militar da organização – por promover e supervisionar a contínua transformação das forças e capacidades da Aliança Atlântica.”
A guerra da informação (IW) é a mais relacionada com a guerra cognitiva (CW) e, portanto, o tipo de guerra mais facilmente confundida no que diz respeito à guerra cognitiva.
No entanto, existem distinções-chave que tornam a guerra cognitiva única o suficiente para ser tratada sob sua própria jurisdição. Como conceito, a IW foi cunhada e desenvolvida pela primeira vez como doutrina das Forças Armadas dos EUA e posteriormente adotada em diferentes formas por várias nações.
Como chefe da Marinha dos EUA, Stuart Greendefiniucomo,” Operações de informação, o próximo conceito doutrinário americano existente para a guerra cognitiva consiste em cinco “capacidades principais”, ou elementos. Isso inclui guerra eletrônica, operações de rede de computadores, PsyOps, decepção militar e segurança operacional.”
A guerra de informações foi projetada principalmente para apoiar objetivos definidos pela missão tradicional das organizações militares – ou seja, produzir efeitos cinéticos letais no campo de batalha, uma missão tradicional que não foi projetada para alcançar sucessos políticos duradouros.
Como definido por Clint Watts, a Guerra Cognitiva se opõe às capacidades de conhecer e produzir, ou seja, ela de forma ativa, frustra o conhecimento. As ciências cognitivas abrangem todas as ciências e seus processos (psicologia, linguística, neurobiologia, lógica e muito mais). A Guerra Cognitiva degrada a capacidade de conhecer, de produzir ou frustrar o conhecimento.
A Guerra Cognitiva é, portanto, a maneira de usar o conhecimento para um propósito conflitante. Em seu sentido mais amplo, a guerra cognitiva não se limita ao mundo militar ou institucional. Essa capacidade vem sendo aplicada aos campos político, econômico, cultural e social. Qualquer usuário de tecnologias de informação modernas é um alvo em potencial. A Guerra Cognitiva tem como alvo todo o capital humano de uma nação.

