Após a formação da federação entre União Brasil e PP, que passou a ser o maior grupo da Câmara dos Deputados com 109 parlamentares, outras siglas de centro e centro-direita iniciaram conversas para tentar conter a hegemonia desse novo bloco. MDB e Republicanos ensaiam uma federação própria, enquanto o PSD, embora fora das negociações formais, sinaliza apoio a uma aliança com essas legendas para as eleições de 2026. Juntas, essas cinco siglas somam 11 ministérios no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas caminham para apoiar um nome da centro-direita na disputa presidencial.
A reação à federação União-PP foi imediata. Logo após o anúncio do acordo, os presidentes do MDB, Baleia Rossi, e do Republicanos, Marcos Pereira, posaram juntos em uma foto estratégica. A imagem foi interpretada como um aceno de que desejam seguir caminho semelhante. Se o plano avançar, a federação entre MDB e Republicanos somaria 89 deputados. Embora não integre diretamente as tratativas, o PSD de Gilberto Kassab aparece como parceiro informal da articulação, especialmente por sua influência em São Paulo, onde está alinhado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Tarcísio tem sido apontado como possível candidato à Presidência em 2026, caso receba o aval de Jair Bolsonaro (PL), seu principal apoiador político. Embora inelegível, Bolsonaro insiste em se apresentar como candidato, o que torna incerta a definição da direita sobre quem de fato disputará o Planalto. Internamente, cresce a percepção de que Tarcísio pode ser uma opção viável para representar esse campo político em 2026, contando com a simpatia dessas legendas de centro.
Apesar da disposição das cúpulas partidárias, há obstáculos relevantes para a formalização da federação entre MDB e Republicanos. Em estados estratégicos e populosos, como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, as legendas divergem quanto a alianças e posicionamentos locais. No Rio, por exemplo, Republicanos e MDB abrigam grupos que se opõem ao prefeito Eduardo Paes (PSD), possível candidato ao governo estadual. Em Minas, o Republicanos é aliado do governador Romeu Zema (Novo), enquanto o MDB está dividido. Já o PSD tem em seus quadros o senador Rodrigo Pacheco, de perfil político distinto.
Na Bahia, as disputas se acentuam ainda mais: o Republicanos é alinhado ao União Brasil, que faz oposição ao PT, ao passo que MDB e PSD integram a base do governador petista Jerônimo Rodrigues. Essas divergências regionais impõem dificuldades à consolidação de uma federação de amplitude nacional.
Outro fator de tensão é a desconfiança em relação ao PSD. Dirigentes de Republicanos e MDB citam atritos passados com Gilberto Kassab, especialmente na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, em que Marcos Pereira retirou sua candidatura por falta de apoio. Pereira culpa Kassab por ter minado a coesão necessária para sua eleição e, por isso, cortou relações com ele desde então. Integrantes do MDB e Republicanos confirmam que o PSD sequer foi procurado para integrar a federação em gestação.
Além das tensões externas, há divisões internas a serem equacionadas. O MDB, em particular, enfrenta dificuldades por seu caráter mais descentralizado. Enquanto uma ala do partido no Sudeste e Sul é simpática ao bolsonarismo, no Norte e Nordeste há maior proximidade com o governo petista. A pluralidade de lideranças regionais, com influência significativa, dificulta a unificação de posições. Já o Republicanos e o PSD contam com estruturas de comando nacional mais centralizadas.
Baleia Rossi reconhece a complexidade do cenário e afirma que decisões definitivas só serão tomadas em 2025. “Decisão para 2026 será no início do ano que vem”, disse o dirigente emedebista. Já Marcos Pereira considera improvável que a federação esteja plenamente formatada para a próxima eleição. “Nós ainda estamos nas conversas iniciais”, resumiu.
Mesmo assim, setores do MDB defendem que a federação é o caminho natural diante da ofensiva da aliança União-PP. A federação permitiria a preservação da relevância política da sigla, que hoje teme perder espaço frente ao agrupamento rival. Há, inclusive, diálogos em curso com outras siglas de menor porte, como o PSDB, que busca novo rumo após o rompimento com o Cidadania.
O senador Renan Calheiros (MDB-AL), influente articulador do partido, defende a união entre MDB, Republicanos e outras siglas dispostas a estabelecer uma base programática comum. “Diante da federação do União com o PP, o mais recomendável era o MDB fazer uma federação com quem se dispusesse a fazer. Desde que guardasse um programa da federação que pudesse unificar, estabelecer propostas e bandeiras. Isso tem que ser trabalhado na política”, afirmou.
Entre os defensores da federação, há a proposta de adotar uma cláusula que permita maior flexibilidade regional. A ideia é liberar os estados para apoiarem diferentes candidaturas à Presidência, conforme os alinhamentos locais, conciliando grupos simpáticos ao governo e setores críticos à atual gestão.
Paralelamente, o ex-presidente Michel Temer também tem se movimentado para fomentar essa articulação de centro. Temer mantém diálogo com os principais líderes das siglas envolvidas, defendendo que a união evite pulverização de candidaturas e reduza o risco de retrocessos eleitorais. Para ele, uma competição direta entre partidos do mesmo espectro ideológico pode resultar em enfraquecimento conjunto.
Se de um lado há dificuldade para consolidar novas federações, do outro, a federação já formada entre União e PP também enfrenta desafios internos. O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, tem sido alvo de críticas por intervir nas articulações estaduais da sigla, gerando insatisfação entre deputados federais. Um grupo de 10 a 15 parlamentares já anunciou que pretende deixar o partido durante a janela partidária de 2026.
Entre os nomes que planejam sair estão Pauderney Avelino (AM), que cogita migração para o PSD; Alfredo Gaspar (AL), que avalia ida ao PL ou ao Novo; e Kim Kataguiri (SP), que articula a criação de uma nova sigla, batizada de Missão. No PP, também há desconfortos, especialmente entre os integrantes mais alinhados ao governo Lula, que agora se veem dentro de uma federação com perfil mais oposicionista.
Esses movimentos revelam um cenário de realinhamento político no Congresso Nacional, com o centro buscando se reorganizar diante da força crescente das federações. A disputa por espaço e protagonismo em 2026 promete ser marcada não apenas por nomes, mas também pela arquitetura das alianças.
Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

