Por Mauro Ferreira

Quem vê as pingas que eu tomo não sabe os tombos que eu levo”. A ressalva de Lupicínio Rodrigues (16 de de setembro de 1914 – 26 de agosto de 1974) – feita ao fim do documentário de Alfredo Manevy sobre o compositor gaúcho – é a senha para desbravar os caminhos deste boêmio imortalizado como criador de sambas-canção de aura geralmente amargurada.

Compositor que traduziu em versos um “romantismo de dimensão trágica”, como bem caracteriza Gilberto Gil em depoimento para este filme exibido em festivais desde dezembro de 2022, o autor de Nervos de aço (1947), Vingança (1951), Nunca (1952) e Volta (1957) tem a sofrência exposta e discutida ao longo da hora e meia do documentário Lupicínio Rodrigues – Confissões de um sofredor (Plural Filmes / Canal Curta!).

Com exímio material de pesquisa garimpado por Lucas Nobile, o filme foca – com imagens raras – um universo particular também esmiuçado pelo músico, arranjador, compositor e escritor gaúcho Arthur de Faria no recém-lançado livro Lupicínio – Uma biografia musical (Editora Arquipélago), no mercado desde maio. Ambos, filme e livro, mostram como Lupi sempre rimou amor com dor na vida e na música.

Se Arthur de Faria recorre a depoimentos de amigos, familiares e parceiros para perfilar o compositor no contexto social da cidade da Porto Alegre nos anos 1940 e 1950, décadas áureas da produção musical do autor de Felicidade (1947), o cineasta Alfredo Manevy dá voz ao próprio Lupicínio, visto e ouvido em entrevistas concedidas entre 1968 e 1974.

Fica claro que Lupicínio amargou profundas dores-de-cotovelo e, por isso, fez do “sentimento de cornitude” – expressão cunhada no filme pelo pesquisador Zuza Homem de Mello (1933 – 2020), autor de fundamental livro sobre a história do samba-canção – a matéria-prima de cancioneiro que, como sentencia Jamelão (1913 – 2008), um dos principais intérpretes do compositor, ressoará eternamente no coração dos ouvintes.

Todo mundo tem seus romances”, enfatiza Jamelão. “A cornitude é uma coisa normal na vida de duas pessoas”, corrobora, mais explícito, o já mencionado Zuza. “Lupicínio tinha coragem de tocar na ferida, de falar dos sentimentos mais baixos, como vingança”, resume Cazuza (1958 – 1990) logo no início do filme.

A força do documentário Lupicínio Rodrigues – Confissões de um sofredor reside tanto na palavra e nas imagens como na exposição da música do compositor. Logo na abertura, o samba-canção Nervos de aço – composto em 1939 e lançado em disco em 1947 – é ouvido com sequência estelar de intérpretes que começa com Caetano Veloso, segue com Adriana Calcanhotto – artista gaúcha que fez em 2014 show em tributo ao centenário de nascimento de Lupi eternizado em álbum ao vivo e DVD – e passa por Marisa Monte (com Arto Lindsay), Paulinho da Viola e Arrigo Barnabé, desaguando em Ney Matogrosso.

Ao longo do filme, o próprio Lupicínio canta obras-primas como Nunca enquanto Gilberto Gil dá voz a Esses moços (Pobres moços), música feita por Lupi em 1948. Entre tantos números musicais, o diretor Alfredo Manevy teve a sensibilidade de exibir na íntegra a sedutora performance de Volta com Gal Costa (1945 – 2022) em gravação audiovisual feita em 1973.

Gal, assim como Caetano Veloso, foi responsável por trazer o cancioneiro de Lupicínio Rodrigues à tona, em meados dos anos 1970, quando a MPB já imperava e o compositor estava esquecido. Naquela época, poucos sabiam que, em 1952, a cantora Linda Batista (1919 – 1988) tivera abertas as portas do sucesso no exterior com o estouro da gravação de Vingança feita em 1952, um ano após o registro fonográfico original.

Como contam livro e filme, o próprio Lupicínio teve abertas as portas da fama em 1938, ano em que o cantor Cyro Monteiro (1913 – 1973) lançou Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), samba que, em dezembro de 1959, também serviria para apresentar Elza Soares (1930 – 2022) ao Brasil.

Compositor negro nascido em família de classe média baixa, Lupicínio Rodrigues também sofreu a dor do racismo, documentado tanto no filme como no livro de Arthur Faria. Compositor de letras machistas que retratavam a mulher de forma impiedosa em músicas como Maria Rosa (1950), parceria com Alcides Gonçalves (1908 – 1987), Lupicínio foi o principal criador da sofrência na música veiculada na era do rádio.

Aliado à força melódica de vários sambas-canção do compositor, esse caráter sofredor faz com que Lupicínio Rodrigues esteja imortalizado na música do Brasil após tantas pingas e tombos que geraram obra de valor atemporal.


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