Por Mauro Ferreira

“Filosoficamente, bossa nova é um estado de espírito”. Disparada em 1959 por Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), em entrevista concedida à já extinta revista O cruzeiro, a sentença seria suficiente para ter encerrado a discussão iniciada esta semana sobre a questão de Chico – música que sobressai no repertório autoral do recém-lançado terceiro álbum de Luísa Sonza, Escândalo íntimo (2023) – ser ou não ser uma bossa nova.

A rigor, do ponto de vista estritamente musical, bossa nova é tão somente a revolucionária batida diferente burilada ao violão por João Gilberto (1931 – 2019), ao longo da década de 1950, e oficialmente apresentada pelo cantor e músico baiano em 1958.

Só que, mais do que um gênero musical, bossa nova também designa um universo sonoro, uma atmosfera de leveza musical sobre a qual uma onda se ergueu no mar da música brasileira, arrastando cantores, compositores e músicos do porte de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), Carlos Lyra. Roberto Menescal e o próprio Ronaldo Bôscoli, letrista que traduziu esse universo em versos coloquiais, escritos sem drama. Todos eles imprimiram às próprias marcas na bossa nova e expandiram o gênero.

Enfim, bossa nova também é, sim, um estado de espírito e, nesse sentido, a canção Chico – composição de autoria creditada à própria Luísa Sonza em parceria com Bruno Caliman, Carolzinha, Douglas Moda, Jeni Mosello – é, sim, bossa nova.

Tanto que Caetano Veloso – ilustre discípulo de João Gilberto que soube se alimentar da modernidade da bossa sem nunca ter ficado restrito àquele universo – entrou na discussão e, por meio de rede social, defendeu Luísa Sonza.

O violão-base está tocando bossa nova, me parece. Mas é que MPB é música popular brasileira… Meio que cobre tudo. São coisas muito diferentes. Depende mais de quem faz e qual o lugar em que as pessoas veem aquele artista”, argumentou Caetano, com razão e sem saudosismo.

Sim, Chico – a canção romântica dedicada por Sonza ao namorado Chico Veiga – tem bossa. A bossa particular da geração de Luísa Sonza, mas ainda assim uma bossa que remete à novidade trazida por João Gilberto em 1958. E isso é muito natural…


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