O vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, voltou a fazer duras críticas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em uma postagem nas redes sociais. Na mensagem, ele classificou o magistrado brasileiro como “descontrolado” e pediu que outras autoridades do Brasil ajam rapidamente para contê-lo, alertando que a situação pode colocar em risco a relação histórica entre os dois países.
“Os Estados Unidos continuam esperando que o Brasil controle seu descontrolado juiz Moraes, da Suprema Corte, antes que ele destrua completamente o relacionamento que nossos grandes países desfrutam há mais de dois séculos. Em vez de qualquer tentativa de resolver a crise, o Brasil está permitindo que esse violador de direitos humanos sancionado intensifique seu abuso do processo judicial para perseguir uma agenda descaradamente política. Os Estados Unidos não permitirão que o juiz Moraes estenda seu regime de censura ao nosso território”, escreveu Landau.
A publicação foi feita em resposta a um suposto pedido de prisão de uma “cidadã americana nascida no Brasil” por críticas à Corte. O perfil oficial da Embaixada dos EUA no Brasil compartilhou a postagem, ampliando o alcance da mensagem. O gesto aumentou ainda mais a tensão diplomática, já abalada pela recente condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e outros crimes.
Enquanto isso, Marco Rubio, chefe da diplomacia americana, afirmou em entrevista à Fox News que novas medidas em retaliação ao julgamento de Bolsonaro serão anunciadas em breve. Ele se referiu aos ministros do STF como “juízes ativistas” e criticou o que considera uma tentativa de impor “reivindicações extraterritoriais contra cidadãos americanos”.
“Você tem esses juízes ativistas, um em particular que não apenas perseguiu Bolsonaro, mas também tentou impor reivindicações extraterritoriais até contra cidadãos americanos, ou contra alguém postando online de dentro dos Estados Unidos, e chegou a ameaçar ir ainda mais longe nesse sentido. Então, haverá uma resposta dos EUA a isso, e teremos alguns anúncios na próxima semana ou algo assim sobre quais medidas adicionais pretendemos tomar”, declarou Rubio.
Durante o julgamento de Bolsonaro e outros sete réus apontados como núcleo central da trama golpista, Moraes defendeu a soberania brasileira e a condução do processo no STF. Ele também criticou tentativas externas de interferir na Justiça brasileira e se posicionou contra articulações políticas que buscam anistiar os envolvidos no golpe.
Após a condenação, Rubio havia dito que os EUA iriam “responder adequadamente” ao que classificou como uma “caça às bruxas” contra Bolsonaro. Desde então, parte dos produtos brasileiros foi alvo de um tarifaço de 50%, enquanto Moraes foi incluído na lista de sanções do país com base na Lei Magnitsky, que prevê restrições financeiras a pessoas acusadas de violar direitos humanos. Essas medidas foram articuladas com apoio do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive atualmente nos Estados Unidos.
A Lei Magnitsky, inicialmente criada para punir violações graves de direitos humanos e corrupção, passou a ser utilizada por Trump como instrumento de pressão política. Com as sanções, cartões de crédito de bandeiras como Visa e Mastercard emitidos pelo Banco do Brasil foram bloqueados para determinadas operações. Após o julgamento no STF, Rubio indicou que os EUA estudam “medidas adicionais”, sem detalhar quais seriam, mas sugerindo que a crise diplomática pode se agravar.
No Brasil, interlocutores do governo já esperavam uma reação negativa. A avaliação interna é de que as novas medidas podem atingir diretamente autoridades brasileiras, seguindo o modelo aplicado a Moraes. Além dele, sete ministros do STF tiveram seus vistos americanos suspensos, com exceção de Kassio Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados por Bolsonaro, e Luiz Fux, único ministro da Primeira Turma que votou pela absolvição do ex-presidente.
As declarações de Rubio também se inserem em um contexto mais amplo. O governo americano tem adotado uma postura de pressão sobre países que mantêm relações comerciais com a Rússia. Recentemente, a Índia foi criticada por comprar petróleo russo. O Brasil, por sua vez, importa fertilizantes da Rússia, o que levanta preocupações de que sanções possam atingir o setor agropecuário brasileiro, base eleitoral da oposição ligada ao bolsonarismo.
“Existe um risco de que, caso essas punições sejam impostas, o agronegócio brasileiro seja diretamente afetado, o que traria instabilidade econômica e política”, avalia um assessor próximo a Lula.
No cenário político americano, Trump fez um comentário mais brando sobre a condenação de Bolsonaro, dizendo considerar o resultado “terrível” e reafirmando que “gosta muito do ex-presidente brasileiro”. Esse posicionamento foi visto como um sinal de cautela, em contraste com a postura mais dura de Rubio e Landau.
Para o governo Lula, o julgamento no STF reforçou a imagem positiva do Brasil no exterior. Segundo membros da equipe presidencial, a condução do processo demonstrou que o país não cede a pressões externas nem a ameaças comerciais, como as tarifas impostas pelos Estados Unidos. Lula, em reunião com líderes do Brics na última segunda-feira, chegou a usar a expressão “chantagem tarifária” para se referir às ações da Casa Branca.
“O Brasil não se curva à chantagem tarifária e segue firme na defesa de sua soberania e de seu sistema democrático”, teria dito o presidente durante o encontro, segundo relatos.
Além das tensões com os EUA, há outros pontos sensíveis na relação bilateral. Um deles é a investigação americana sobre práticas comerciais consideradas desleais, incluindo a operação do Pix, sistema de pagamento brasileiro que compete com empresas americanas de cartões de crédito. Esse tema deve ser abordado nas negociações multilaterais previstas para os próximos meses.
Enquanto a crise diplomática se intensifica, Lula se prepara para viajar a Nova York, onde participará da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O presidente fará o tradicional discurso de abertura na próxima terça-feira, reafirmando os compromissos do Brasil com a democracia e o desenvolvimento sustentável.
“Essa será uma oportunidade de mostrar ao mundo que o Brasil está pronto para liderar debates sobre mudanças climáticas e inclusão social, além de defender a importância do multilateralismo em tempos de tensão geopolítica”, afirmou um diplomata brasileiro envolvido na preparação do evento.
Nos dias seguintes à Assembleia, Lula participará da Cúpula do Clima, marcada para 24 de setembro, onde os países devem apresentar suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa e de adaptação às mudanças climáticas. Essas metas, chamadas de NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), são fundamentais para o avanço das negociações que culminarão na COP30, a ser realizada em novembro de 2025, em Belém, no Pará.
Em artigo publicado no jornal “The New York Times” no último domingo, Lula enviou uma mensagem direta a Trump, destacando que o Brasil está aberto a negociações que tragam benefícios mútuos, mas reafirmando que a democracia e a soberania nacional não estão em jogo.
“O Brasil continua aberto a negociar qualquer coisa que possa trazer benefícios mútuos. Mas a democracia e a soberania do nosso país não estão em pauta”, escreveu Lula.
O presidente também ressaltou seu orgulho pela “decisão histórica” do STF na condenação de Bolsonaro e de outros envolvidos na tentativa de golpe.
“Essa decisão salvaguarda nossas instituições e o Estado Democrático de Direito, mostrando que ninguém está acima da lei”, concluiu.
A viagem de Lula e o discurso na ONU são vistos como estratégicos para reforçar a imagem do Brasil como um ator global relevante e independente. Enquanto isso, a escalada de declarações entre autoridades americanas e brasileiras continuará sendo monitorada de perto, pois pode determinar os rumos da política externa nos próximos meses.
Foto: Gage Skidmore/CC

