O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), concedeu uma entrevista ao, Estadão, abordando temas como economia, segurança pública, seu futuro político e a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, indiciado pela Polícia Federal (PF) por suspeita de envolvimento em uma trama golpista após as eleições de 2022. Durante a conversa, Zema manteve um tom crítico em relação ao governo federal e reiterou a importância de uma condução judicial imparcial em relação às acusações contra Bolsonaro.

Zema evitou defender explicitamente o ex-presidente, mesmo tendo o apoiado em 2022. “Eu não tive acesso aos dados e é muito difícil estar avaliando tanto o caso dele quanto o do general (Braga Netto, preso no dia 14). Até quem é advogado, leu tudo, tem opiniões divergentes. Para quem, como eu, não é advogado e está longe, é extremamente difícil opinar”, afirmou. Ele destacou que defende a democracia e espera que o processo seja conduzido sem viés político. “Espero que isso não seja nenhuma ação tendendo a retaliar alguém que é oposição”, completou.

Zema enfatizou que a justiça deve garantir o amplo direito de defesa, princípio fundamental da democracia, mas afirmou que não está suficientemente informado para emitir juízo de valor sobre o caso. O governador ressaltou a necessidade de foco em temas que impactam diretamente a vida da população, como a economia e a segurança pública, áreas que, segundo ele, enfrentam inação e debates excessivos por parte do governo federal.

Zema foi contundente ao criticar a condução econômica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Ele apontou o aumento do risco fiscal como um dos principais problemas, indicando que o governo não adota medidas efetivas para conter gastos públicos. “Estamos com uma bomba relógio armada devido à dificuldade do governo em adotar medidas de contenção de gastos. Se isso não acontecer, o mercado já está sinalizando claramente um aumento enorme na taxa de juros e a disparada do dólar, o que trará inflação”, afirmou.

Para Zema, o cenário atual é um reflexo da falta de austeridade no governo federal. Ele comparou a situação econômica atual com os anos de 2015 e 2016, marcados por recessão e desemprego elevado. Segundo ele, o número excessivo de ministérios e a ausência de medidas concretas tornam o governo Lula incapaz de dar o exemplo necessário para a austeridade. “Quem tem 39, 40 ministérios não tem nenhuma autoridade e legitimidade para estar pedindo austeridade e corte. Se você quer cortar, dê o exemplo”, disparou.

Zema também destacou as diferenças entre a gestão de Minas Gerais e a do governo federal, afirmando que em Minas as medidas de austeridade começaram pelo próprio governador. Ele argumentou que, enquanto o governo federal busca impor medidas aos outros, em Minas os cortes de gastos começaram pela liderança, o que serviu de exemplo para o restante do Estado.

Na entrevista, Zema também abordou o tema da segurança pública, tema de debates recentes entre governadores e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. O governador criticou a proposta do governo federal de centralizar parte das ações na área por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Ele afirmou que a União deveria priorizar ações práticas e básicas, como dar condições para as polícias atuarem de forma mais eficiente.

Zema apresentou propostas como a prisão automática de detentos que rompem tornozeleiras eletrônicas e a detenção de reincidentes que cometem o mesmo delito várias vezes. Segundo ele, medidas simples como essas têm impacto direto na segurança pública e poderiam ser implementadas rapidamente. Ele criticou a lentidão do governo federal, afirmando que “quem não faz o básico não vai fazer o sofisticado”.

O governador também destacou a necessidade de garantir segurança jurídica para a atuação policial, criticando a forma como abordagens são frequentemente associadas a preconceitos. “Hoje, se você faz uma abordagem a uma pessoa negra, você é racista. Se faz uma abordagem a alguém mais obeso, você é gordofóbico. Isso tira totalmente a iniciativa da polícia de abordar e fiscalizar”, disse. Para ele, o excesso de interpretações ideológicas prejudica o trabalho policial e desestimula a atuação dos agentes.

Com relação ao cenário político de 2026, Zema confirmou sua disposição de ser candidato à presidência da República, caso haja apoio suficiente e uma construção sólida. Ele ressaltou sua trajetória à frente de Minas Gerais, onde está em seu segundo mandato, e apontou que deseja contribuir com o Brasil, seja como presidente ou de outra forma.

“Vou entregar para o meu sucessor um Estado totalmente diferente daquele que eu assumi. Recebi um cemitério de obras inacabadas e vou deixar um canteiro de obras com recursos já reservados. Quero contribuir com o Brasil. Se tiver apoio, serei candidato. O que eu quero é ajudar o Brasil”, afirmou.

Sobre a relação com Bolsonaro, Zema reiterou que mantém respeito pelo ex-presidente e espera que as acusações contra ele sejam tratadas de forma imparcial e justa. Apesar de não entrar em detalhes sobre o processo, o governador declarou que as decisões judiciais devem ser isentas de qualquer motivação política.

Outro tema relevante da entrevista foi a situação financeira de Minas Gerais. Zema destacou que o Programa de Pagamento de Dívidas dos Estados com a União (Propag), aprovado recentemente, oferece uma solução viável para a dívida do Estado, que chegou a R$ 165 bilhões. Ele elogiou o trabalho do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e de lideranças políticas mineiras pela aprovação do programa.

“Antes, tínhamos uma correção por IPCA mais 4%, o que tornava a dívida insustentável. Com o Propag, a correção será reduzida para IPCA mais 1%, o que permitirá que o Estado cumpra com suas obrigações sem comprometer o orçamento”, explicou. O governador também mencionou a intenção de transferir estatais como Cemig e Copasa para a União, com o objetivo de abater parte da dívida. No entanto, ele ressaltou que essa decisão dependerá do interesse do governo federal.

Ao enfatizar a importância de ações práticas e imediatas tanto na economia quanto na segurança pública, Zema apresenta uma visão pragmática para enfrentar os desafios do Brasil. Sua disposição para liderar o país em 2026 demonstra ambição política, mas também o compromisso de contribuir para um Brasil mais eficiente e equilibrado.

Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

 


Avatar

administrator