A tenente-coronel Kelly Cezário, ex-comandante do batalhão da Polícia Militar responsável pela segurança da Esplanada dos Ministérios, sugeriu que o subcomandante de sua unidade, o major Flávio Alencar, alinhasse sua defesa com a do então comandante-geral da PM do Distrito Federal, coronel Fábio Augusto, em relação aos eventos de 8 de janeiro. A proposta foi feita à esposa de Flávio, Carolyne Alencar, conforme áudios obtidos pela Folha de São Paulo.
No dia do ataque às sedes dos Três Poderes, Kelly estava de férias desde 3 de janeiro e não atuou diretamente. Flávio, que respondia interinamente pelo Batalhão dos Poderes, é réu em processo penal que investiga suposta omissão da PM-DF. Kelly não foi denunciada nem oficialmente investigada, mas seu nome aparece em depoimentos e apurações em sigilo.
Em uma das mensagens enviadas a Carolyne, Kelly orientou: “O ideal é colocar a advogada do capitão Josiel e o advogado do coronel Fábio Augusto para trabalharem juntos em uma mesma linha de defesa. É uma história só e é importante evitar ruídos ao darem depoimentos ou elaborarem suas estratégias.” Kelly chegou a fornecer os contatos dos advogados envolvidos e insistiu em outros momentos para que o alinhamento fosse feito.
Carolyne agradeceu as sugestões, mas não há confirmação sobre a adoção da orientação. Posteriormente, áudios recuperados pela Polícia Federal mostram Flávio afirmando que Kelly teria tentado encontrar “qualquer furo” para incriminá-lo. Segundo ele, “Enquanto eu estava preso, ela pressionou minha esposa para convencer minha advogada a acertar depoimentos.”
A PM-DF atravessava, na época, um período de divisão interna, com grupos disputando cargos e influência. Kelly era ligada ao então comandante-geral Fábio Augusto e à subsecretária de Operações Integradas, Cíntia Queiroz. Por outro lado, o chefe do Departamento Operacional, coronel Jorge Eduardo Naime Barreto, e o subcomandante Klepter Rosa lideravam o grupo oposto, que assumiu o comando após os ataques de 8 de janeiro.
No contexto dos ataques, Flávio foi acusado de esvaziar uma barreira de policiais do Batalhão de Choque posicionada entre a Câmara dos Deputados e o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele alegou ter desfeito a linha de contenção após ser informado que Fábio Augusto estava cercado e ferido no Congresso Nacional. No entanto, o capitão Josiel Pereira César, então ajudante de ordens de Fábio, negou que houvesse qualquer ordem nesse sentido, embora tenha confirmado que Flávio buscava informações sobre o comandante no Salão Verde da Câmara.
Flávio foi preso em duas ocasiões. A primeira, em fevereiro de 2023, ocorreu após suspeitas de omissão nos ataques. A segunda, em maio do mesmo ano, foi motivada por mensagens de dezembro de 2022, onde ele escreveu em um grupo de policiais: “Na primeira manifestação, é só deixar invadir o Congresso.” Flávio justificou que a mensagem fazia referência ao possível fim do Fundo Constitucional, que financia a segurança do Distrito Federal, e não a planos de invasão.
Apesar de estar de férias em 8 de janeiro, Kelly foi mencionada no depoimento do diretor da polícia da Câmara, Paul Pierre Deeter, ao STF. Segundo ele, agentes da Câmara conversaram com Kelly duas vezes naquele dia, por volta das 11h e 13h. Ela teria afirmado que estava “em condições de atuar” e que “tudo estava sob controle”. Essa informação ainda não foi esclarecida pelas autoridades.
Atualmente, Kelly é supervisora de operações no Centro Integrado de Operações de Brasília, subordinado à Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. A movimentação de seu nome em depoimentos e áudios mantém especulações sobre seu papel nos eventos de 8 de janeiro, ainda que oficialmente não figure como investigada ou ré.
Enquanto isso, os processos judiciais contra os envolvidos nos ataques continuam. O caso ilustra a complexidade das relações internas na PM-DF durante a crise, a disputa por poder e as responsabilidades individuais na segurança das sedes dos Três Poderes. O alinhamento de depoimentos e defesas segue como um ponto sensível, refletindo os impactos de divisões internas em momentos de crise institucional.
Foto: Joedson Alves/Agência Brasil

