Recolhido e cauteloso diante do risco de novas sanções por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem evitado declarações públicas, mas segue em intensa articulação política nos bastidores. Nesta quarta-feira, ao menos sete aliados estiveram na sede do Partido Liberal, em Brasília, onde Bolsonaro passou o dia. Coube a eles dar voz às críticas contra o ministro Alexandre de Moraes e contra o STF. Um dos principais movimentos foi a apresentação, pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de um novo pedido de impeachment contra o magistrado.

Segundo interlocutores próximos, Bolsonaro “está bem, sem medo” e tem recebido visitas desde o início da semana. Ele deve permanecer na sede do partido até o início da noite, quando, por força de medida cautelar, precisa retornar à sua residência. O almoço foi novamente servido por um buffet no local, prática já recorrente desde sua permanência diária no espaço.

Sem autorização para se manifestar até que Moraes esclareça os limites das medidas impostas, Bolsonaro tem delegado a tarefa do discurso político a parlamentares e lideranças próximas. “Esse cara (Moraes) está trabalhando para isolar Jair Bolsonaro. Não tem base jurídica nenhuma. Ali não se salva quase ninguém, salvo o discernimento de Fux, André Mendonça e Nunes Marques”, afirmou o senador Magno Malta (PL-ES), um dos visitantes desta quarta-feira.

Entre os que passaram pelo partido estavam os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Evair de Melo (PP-ES), Delegado Caveira (PL-AL), Domingos Sávio (PL-MG), o vereador Jair Renan Bolsonaro (PL-SC) e o deputado estadual Bruno Engler (PL-MG). De Sávio, veio uma das falas mais duras: “Moraes precisa ir para o divã. Ele censura todo mundo. Não vai me calar, mas pode mandar me prender. A democracia liberal não se sustenta assim”.

Questionado sobre conversas privadas com o ex-presidente, Domingos Sávio preferiu não dar detalhes. “Não posso dizer o que falei com ele porque ele pode ser preso se eu externar a opinião”.

A Bolsonaro, aliados relatam ter ouvido declarações de tranquilidade e confiança de que nenhuma infração foi cometida. O ambiente na sede do PL tem sido descrito como de coesão e solidariedade política. “Está como sempre esteve. Estamos seguros de que ele não cometeu crime nenhum, mas não há mais segurança jurídica de que não haverá novas sanções”, relatou um aliado próximo.

O clima de tensão que dominava o grupo diminuiu com a ausência de manifestação imediata de Moraes sobre o suposto descumprimento das medidas. Até a noite de terça-feira, aliados temiam uma ordem de prisão preventiva ainda nas primeiras horas do dia seguinte — o que não se confirmou. A expectativa, agora, é que o ministro mantenha as penalidades já impostas.

No campo jurídico, Flávio Bolsonaro reforçou a ofensiva ao protocolar mais um pedido de impeachment contra Moraes. A peça argumenta que o ministro teria deixado de agir como julgador imparcial e assumido uma postura política. “O ministro relator abandona sua posição constitucional de julgador imparcial para assumir um protagonismo político absolutamente incompatível com o cargo que ocupa. A decisão de medidas cautelares ao ex-presidente Jair Messias Bolsonaro extrapola em muito os limites que regem o exercício da jurisdição penal. Trata-se de uma decisão com nítida carga político-partidária \[…] em evidente contexto de perseguição ideológica”, diz o texto.

Caberá ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), decidir se dará seguimento ao pedido. Enquanto isso, Bolsonaro segue em silêncio, enquanto seus aliados mantêm o embate público com o STF.

Foto: Alan Santos/Câmara dos Deputado

 

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