A saída iminente de Celso Sabino do Ministério do Turismo desencadeou uma disputa política intensa no governo, envolvendo PT, PDT e União Brasil. O movimento também aumentou a pressão sobre André Fufuca, ministro do Esporte, que integra a mesma federação partidária do ministro demissionário. Sabino se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última sexta-feira e comunicou sua intenção de deixar o cargo, decisão que será oficializada após o retorno do presidente de Nova York, previsto para quarta-feira.
De acordo com interlocutores do Palácio do Planalto, diversas possibilidades estão sendo avaliadas para a substituição, em uma negociação que extrapola a escolha do novo ministro e já se conecta com as articulações para a eleição presidencial de 2026. Uma alternativa considerada por Lula é manter alguém de confiança de Sabino no comando, como a atual secretária-executiva da pasta, Ana Carla Machado Lopes.
O PDT, por sua vez, manifestou abertamente o desejo de assumir mais um ministério, além da Previdência, atualmente chefiada por Wolney Queiroz. O pedido foi levado diretamente a Lula durante um almoço com a bancada do partido no Palácio da Alvorada, na última quarta-feira. Outra figura influente nesse cenário é o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), que quer manter um nome de seu estado à frente do Turismo, especialmente com a proximidade da COP30, marcada para novembro, em Belém.
Sabino, aliado de Barbalho, deve concorrer ao Senado em chapa com o governador. “Pretendo respeitar a decisão do meu partido. O presidente Lula me pediu para aguardar a volta dele da Assembleia Geral da ONU. Vamos voltar a conversar”, afirmou Sabino, em Belém, ao portal g1.
Dentro do PT, há uma defesa pela nomeação de Marcelo Freixo, atual presidente da Embratur. Contudo, pesa contra ele a possibilidade de disputar uma vaga na Câmara em 2025, o que o obrigaria a deixar o cargo em abril. A bancada petista sinalizou que não se oporá caso Lula decida oferecer o Turismo ao PDT, fortalecendo a aliança. Patrus Ananias (MG), vice-líder do PT na Câmara, destacou que a decisão cabe exclusivamente ao Planalto, mas elogiou Freixo: “Tenho muita boa relação com o Freixo e muito respeito por ele. Mas essa é uma questão do governo”, afirmou.
A saída de Sabino pressiona indiretamente André Fufuca. Na semana passada, o União Brasil, que formou federação com o PP em agosto, determinou que todos os filiados entreguem seus cargos. A decisão foi tomada após denúncias de que um avião ligado ao presidente do partido, Antônio Rueda, teria sido utilizado pelo crime organizado. Rueda nega as acusações, mas alega que houve influência do governo na divulgação das informações, hipótese rejeitada pelo Planalto.
A determinação do União gerou incômodo no PP, que contava com a permanência de Fufuca por mais tempo no Esporte. O Planalto também se irritou com o suplente de Fufuca na Câmara, Allan Garcês (PP-MA), que votou a favor do requerimento de urgência para tramitação do projeto de anistia. Esse voto foi considerado uma afronta, especialmente após Gleisi Hoffmann, ministra das Relações Institucionais, pedir empenho para barrar a proposta. Fufuca afirmou a aliados que não mantém relação com Garcês, mas sua posição no governo ficou fragilizada.
Enquanto isso, o PDT observa de perto o Ministério do Esporte, caso o Turismo seja entregue a Freixo ou a um nome apoiado por Helder Barbalho. As mudanças nos ministérios simbolizam o desfecho de uma relação sempre instável entre o governo e União Brasil. Sabino assumiu o Turismo em julho de 2023, após Daniela Carneiro perder o apoio do partido, numa tentativa de aproximar a legenda do governo, esforço que nunca se consolidou plenamente. Fufuca ingressou dois meses depois, com a mesma missão de fortalecer a base no Congresso.
Sem a segurança de uma aliança sólida, o governo tem investido na articulação direta com os líderes das Casas Legislativas. A boa relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), tem sido considerada estratégica. Na semana passada, ele paralisou a tramitação da PEC da Blindagem, que foi aprovada na Câmara e enfrenta resistência popular. A proposta impede a abertura de ações penais contra parlamentares sem autorização do Congresso. Segundo levantamento do jornal O Globo, já existe maioria no Senado para barrar a medida, que será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça.
Com a saída de Sabino e a possível queda de Fufuca, Lula terá de equilibrar interesses regionais, partidários e estratégicos, ao mesmo tempo em que busca fortalecer sua base política para enfrentar os desafios do segundo mandato e preparar o terreno para a disputa eleitoral de 2026.
Foto: Brenno Carvalho

