Dois meses após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar um aumento drástico de tarifas sobre produtos brasileiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia hoje, em Nova York, uma série de compromissos que servirão como contraponto direto às políticas e aos posicionamentos defendidos pelo líder norte-americano. A viagem de Lula aos Estados Unidos terá como pontos centrais a participação em reuniões sobre a situação humanitária dos palestinos na Faixa de Gaza, alvo de intensa ofensiva militar de Israel apoiada pelo governo de Trump, um evento internacional voltado à defesa da democracia e, principalmente, sua presença na Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU), marcada para amanhã. Durante o tradicional discurso de abertura, Lula abordará a importância da soberania nacional e fará cobranças contundentes sobre o cumprimento de metas relacionadas à crise climática.

O encontro da ONU ocorre em um momento delicado das relações entre Brasil e Estados Unidos, atualmente no nível mais tenso em mais de dois séculos de laços diplomáticos. No palco global, Lula terá a oportunidade de se posicionar diante de líderes mundiais, incluindo o próprio Trump, que falará logo após ele. Interlocutores do governo brasileiro revelam que o discurso está sendo redigido com extremo cuidado para evitar um confronto direto com o presidente norte-americano, mas ainda assim trará mensagens firmes à comunidade internacional, reforçando a defesa do multilateralismo e da autodeterminação dos povos.

A viagem de Lula acontece em meio a novas ameaças do governo norte-americano. O secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou que os Estados Unidos estão prestes a divulgar novas sanções contra autoridades brasileiras, como resposta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado. Trump considera que Bolsonaro, seu aliado político, está sendo alvo de uma “caça às bruxas” no Brasil. Washington pressiona para que a negociação sobre a eliminação da sobretaxa de cinquenta por cento imposta às exportações brasileiras seja vinculada ao fim do que chamam de perseguição ao ex-presidente.

O ministro Alexandre de Moraes, do STF, já foi alvo de sanções, incluindo a proibição de realizar operações comerciais e financeiras com empresas dos Estados Unidos. Além disso, magistrados e integrantes do governo brasileiro tiveram seus vistos de entrada em território norte-americano cancelados. Esse contexto fortaleceu a narrativa de Lula em defesa da soberania nacional. Pesquisas recentes indicam que, embora cinquenta e um por cento dos brasileiros reprovem a gestão do petista, sessenta e quatro por cento apoiam a postura firme do governo diante da crise diplomática com Washington, a mais grave em mais de duzentos anos de história bilateral.

No discurso previsto para amanhã, Lula deve criticar o uso de sanções unilaterais e de ameaças econômicas ou militares como instrumentos de pressão política, defendendo uma ordem mundial baseada na cooperação e no diálogo entre as nações. Ao se dirigir aos líderes dos cento e noventa e três países membros da ONU, Lula pretende reforçar que sua fala não se restringirá aos Estados Unidos ou a Trump, que não devem ser citados diretamente. O texto final do discurso, no entanto, será definido apenas momentos antes da apresentação, como é tradição.

Além de temas como soberania e democracia, Lula dará grande destaque à crise climática e à necessidade de uma transição energética justa e sustentável. Ele pretende reforçar o convite para que líderes mundiais participem da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, que será realizada em Belém, no Pará, em novembro. O presidente também abordará questões históricas da diplomacia brasileira, como o combate à fome e à pobreza, e voltará a defender reformas profundas nos organismos multilaterais, incluindo a ampliação do Conselho de Segurança da ONU, para torná-lo mais representativo e eficaz.

Outro ponto central será a defesa de negociações para alcançar um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia, além da condenação explícita ao que Lula já classificou como genocídio do povo palestino por parte de Israel, em Gaza. Recentemente, a escalada da ofensiva israelense, que incluiu uma nova incursão terrestre na região, foi alvo de forte repúdio por parte do Itamaraty. Especialistas avaliam que Lula pode adotar um tom mais confrontador ou conciliador, dependendo da estratégia final escolhida. “Ainda não sabemos se Lula optará por um discurso de confrontação, como tem demonstrado em algumas declarações públicas, ou de busca de diálogo, como visto em seu artigo recente no New York Times”, analisa Guilherme Casarões, professor de Estudos Brasileiros na Florida International University. O artigo mencionado por Casarões foi publicado recentemente por Lula no jornal norte-americano, onde ele rebateu críticas feitas por Trump ao Brasil e convidou o presidente dos Estados Unidos a dialogar.

Antes de subir à tribuna da ONU, Lula participará hoje de reuniões sobre a situação em Gaza. Ele foi convidado para integrar um debate sobre a criação de dois Estados, o de Israel e o da Palestina, em uma iniciativa liderada por França e Arábia Saudita. Essa pauta se contrapõe diretamente à posição defendida por Trump, que tem dado respaldo irrestrito às ações militares do governo de Benjamin Netanyahu. Ontem, Canadá, Reino Unido e Austrália anunciaram oficialmente o reconhecimento do Estado Palestino, o que amplia a pressão internacional sobre Israel e seus aliados.

Na quarta-feira, último dia da viagem, Lula será um dos co-presidentes do evento “Em Defesa da Democracia: Combatendo os Extremismos”. Esse encontro reunirá chefes de Estado de diferentes regiões do mundo para debater estratégias voltadas ao fortalecimento da democracia diante de ameaças como o avanço do extremismo político, a disseminação de desinformação, o discurso de ódio e os ataques às instituições democráticas. Além de Lula, estarão à frente do evento o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, e os presidentes do Chile, Gabriel Boric; da Colômbia, Gustavo Petro; e do Uruguai, Luis Lacalle Pou.

Essa será a segunda edição do evento, cuja primeira realização ocorreu no Chile, em julho deste ano, já sob o impacto do anúncio norte-americano sobre o aumento das tarifas globais. Naquela ocasião, Lula enviou um recado velado a Trump ao afirmar que a democracia não está sendo ameaçada pelo socialismo, mas sim pela ascensão da extrema-direita. “A democracia está perdendo espaço, não para o socialismo, mas para a extrema-direita, com comportamento nazista, fascista, que não respeita a relação civilizada entre os iguais e desiguais”, declarou Lula na ocasião, em um discurso que repercutiu internacionalmente.

A trajetória de discursos brasileiros na ONU revela momentos marcantes da diplomacia nacional. Em mil novecentos e quarenta e sete, Oswaldo Aranha, chefe da delegação brasileira, abriu a II Assembleia Geral com uma fala histórica sobre paz e convivência entre diferentes culturas e religiões. Após o discurso, ele foi eleito presidente da Assembleia e articulou o plano que resultou na criação do Estado de Israel.

Décadas depois, em mil novecentos e oitenta e dois, o general João Batista Figueiredo se tornou o primeiro presidente do Brasil a discursar na ONU, abordando a crise da dívida externa e defendendo o livre comércio. Em dois mil e três, Lula estreou na tribuna com uma fala voltada ao combate à fome e à ampliação das relações com China e Rússia, países que, junto com o Brasil, formariam posteriormente o bloco dos Brics.

Em dois mil e onze, Dilma Rousseff marcou a história como a primeira mulher a abrir a Assembleia-Geral, defendendo o multilateralismo em meio aos reflexos da crise financeira global e à Primavera Árabe. Já em dois mil e dezenove, Jair Bolsonaro optou por um discurso ideológico, criticando indiretamente países como França e Alemanha, além de acusar a ONU de endossar práticas do programa Mais Médicos, que ele classificou como “trabalho escravo”.

No ano passado, em dois mil e vinte e quatro, Lula voltou à tribuna para tratar de temas como o conflito entre Rússia e Ucrânia, a ofensiva israelense em Gaza e a necessidade de uma reforma na governança global. Sem citar nomes, também mencionou o impasse envolvendo o bilionário Elon Musk e o Judiciário brasileiro, ressaltando a importância de preservar a soberania digital e combater a desinformação.

A expectativa é que o discurso deste ano seja um dos mais desafiadores da carreira política de Lula. Diante de um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, crises humanitárias e disputas comerciais, o presidente brasileiro buscará se apresentar como voz ativa na defesa da democracia, da paz e do multilateralismo, reforçando a imagem do Brasil como país comprometido com a justiça social e o equilíbrio entre as nações.

Ricardo Stuckert/PR

 

 

 


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