No segundo semestre de 2020, em um dos auges da pandemia e seus horrores, o historiador, autor e diretor teatral Gustavo Des foi, como muitos de nós, acometido por uma angústia arrasadora. O medo da morte se fazia tão presente que parecia habitar todos os cômodos de sua casa.
Foi nesse contexto de desassossego, de incerteza e de notícias desagradáveis que ele sentiu a necessidade de se expressar em forma de arte. O resultado é “Ópera Massacre”, espetáculo nasce a partir das reflexões de Gustavo em um mundo sitiado pela Covid-19.
Inspirada pelo teatro do absurdo, vertente que surge num cenário pós-Segunda Guerra com um forte caráter de descrença na humanidade, a peça conta a história da matriarca – uma cantora de ópera – que passa a ser desconsiderada por sua família aristocrata quando ela, ao enfrentar uma situação de extrema vulnerabilidade (leia-se estado vegetativo), tem de conviver com a iminência da morte.
Ao planejarem como será o velório da senhora, os familiares entram em colapso e confronto diante das mais diversas circunstâncias impostas pelo convívio e pela rotina.
Assim, o texto de Gustavo Des ganha a tragicomicidade que caracteriza “Ópera Massacre”, primeira obra do diretor encenada fora do ambiente virtual.
Na pandemia, o autor se reconectou à música clássica, que também desempenha papel fundamental no desenrolar da história. “A música acentua nossas emoções, a trilha é muito importante no espetáculo”, ele comenta.
“Eu gosto muito do teatro do absurdo, ele tem elementos que a ópera também carrega”, completa Gustavo Des.
O título da peça carrega a urgência, a dor e o desabafo do autor: “Não é um musical, mas temos a música e a sonoplastia desempenhando um papel fundamental tanto para um estranhamento quanto para a escalada de tensão no espetáculo, que também traz elementos de terror e experiências com cheiros que nos remetem a uma atmosfera de um funeral”.
Após passar por três teatros de Belo Horizonte em meados do ano passado, “Ópera Massacre” volta aos palcos, desta vez como estreante da 48ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, que começa nesta quinta-feira (5) e, até 12 de fevereiro (mais detalhes no fim da matéria), apresenta 112 espetáculos de teatro adulto, infantil e dança, além de 12 apresentações de stand-up.
O evento, realizado pelo Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (Sinparc), passará por 26 teatros e espaços culturais da capital. Palácio das Artes, Feluma, CCBB, Cine Theatro Brasil Vallourec, Francisco Nunes, Galpão Cine Horto, Sesc Palladium e Raul Belém Machado estão na lista para receber a programação. Contagem, Betim e Ribeirão das Neves, na região metropolitana de BH, também terão atividades especiais.
Desafios
Diferentemente de 2022, quando a pandemia ainda rondava nossos dias com mais perigo e letalidade e a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança teve sua programação sensivelmente esvaziada, chegando a menos de 50 montagens, até por conta das restrições em função da Covid-19, o evento volta a ser realizado com o número costumeiro de obras à disposição da plateia belo-horizontina.
Entre as 112 peças – mais que o dobro do ano passado – que serão apresentadas nesta 48ª edição, a agenda agora conta com 40 estreias, como o espetáculo de dança “Elis, 40 Anos de Legado”, o infantil “Rapunzel” e a comédia “Aceita Que Dói Menos”. Trabalhos que há anos integram a programação da Campanha também continuam no cardápio de atrações – estamos falando de “Nós”, do Grupo Galpão, “Acredite, Um Espírito Baixou em Mim”, com Ilvio Amaral e Maurício Canguçú, e “Auto da Compadecida”, do Grupo Maria Cutia.
Para Dilson Mayron, coordenador do evento e diretor do Sinparc, a Campanha ganha novo fôlego em 2023 devido ao arrefecimento da pandemia e a um panorama mais favorável às produções cênicas: “Os produtores estão mais confiantes para poder estrear ou voltar a encenar suas peças”.
Os desafios, entretanto, continuam os mesmos. Viabilizar recursos para a realização da Campanha é, de longe, a barreira mais difícil a ser superada. “Patrocínio é a coisa mais complicada que qualquer evento enfrenta em BH. Todo ano entramos com a cara e a coragem. Ainda estamos tentando captar recursos de projetos já aprovados nas leis de incentivo municipal e estadual. Se não entrar, vamos ficar em apuros, mas, se Deus quiser, vai dar tudo certo”, diz Dilson Mayron.
Segundo o produtor, “estamos vivendo a ressaca” dos últimos três anos. Porém, com a chegada do governo Lula ao poder e a recriação do Ministério da Cultura, pasta chefiada pela cantora e compositora Margareth Menezes, Mayron acredita que os bons ventos voltarão a soprar para os trabalhadores do setor: “Este ano será muito melhor que 2022. O MinC vai facilitar muito nossa vida, as empresas ficam mais dispostas a investir. Estamos com boas expectativas em todos os níveis – federal, estadual e municipal. A categoria está animada”.
A 48ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de BH começa nesta quinta-feira (5). Até 12 de fevereiro, serão encenados 112 espetáculos, dos quais 40 fazem sua estreia no evento. Nos postos do Sinparc (Shopping Cidade e Pátio Savassi) e no site vaaoteatromg.com.br – onde também é possível baixar a programação completa –, os valores dos ingressos variam de R$ 15 a R$ 20.
Nas bilheterias dos teatros, os preços variam de acordo com cada produção. Informações sobre a Campanha também podem ser obtidas nas redes sociais do Sinparc (Facebook e Instagram): @sinparcmg.

