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Do José Alencar ouvi falar ainda garoto, em Ubá, hospedado por parentes nas férias escolares, quando avistei caminhão baú da União dos Cometas, em trânsito no Beco do Padilha, no sentido da rua 13 de maio, detonar lata de lixo que se projetava da calçada para além do meio-fio, e dela esparramar os detritos pela via afora. Um fato corriqueiro, mas ruidoso o suficiente para imprimir na minha memória aquele cometa de rastro insólito. Segundo Sergio Asquenazi, meu vizinho em Campos do Jordão, que é historiador e tem raízes na Zona da Mata, e com quem mantenho acirradas e divertidas interlocuções, a palavra cometa também se conota aos vendedores ambulantes, que viajam pelo país afora oferecendo as suas mercadorias. Essa empresa, dos Cometas, acabou dando origem à conhecida Wembley, indústria de confecções. Alencar a deixou em mãos de funcionários e criou a Coteminas, que ainda perdura, com sucesso e ampliada em várias direções. Mas, foi a União dos Cometas que marcou a minha memória naqueles tempos. E marcou bem marcado, porque um de meus parentes, ainda jovem, que na mesma trabalhava como vendedor-motorista, viajando pelo Interior, passava mais tempo estacionado à beira das rodovias, ressonando alcoolizado, do que fazendo o seu trabalho. É lógico que não durou muito, esse cometa errático, que se desviou da lida e terminou demitido.

Conheci, pessoalmente, o José Alencar, muito tempo depois, antes da campanha eleitoral de 98, através do Newton Cardoso. Alencar, vitorioso na vida empresarial, ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais e com larga capilaridade de relações no meio político e na iniciativa privada, queria mais. Ele conjugava com propriedade o verbo ter, mas o vocábulo ser, do ponto de vista do poder e da notoriedade, lhe faltava ampliar. Isto é normal, é próprio da índole de personalidades inquietas e que têm energia em ebulição. Alencar promovia encontros periódicos na sede da Coteminas, em Belo Horizonte, no restaurante da empresa, onde nos recebia em petit comité e com frequência o Newton Cardoso, notório por ele mesmo, o Armando Costa, que foi deputado federal e presidente do PMDB, além do Anderson Adauto, deputado estadual e a mim, que vinha a reboque. O prato, invariavelmente carne de panela com taioba e angu, e o vinho, tinto, era proveniente da Vinícola Rio Sol, sediada nas barrancas do Vale do Rio São Francisco. No apoio, sempre presente e escudando o Alencar, a figura discreta do Antônio Adriano Silva, cuja amizade com o mesmo preservo há muitos anos.

E foi desses encontros que, certamente, surgiu o nome do empresário para compor a chapa de Itamar Franco e Newton Cardoso na eleição de 98, na qual o Itamar figurava para governador, o Newton para vice, e o Alencar para o Senado. No início da campanha o nome do Alencar ainda não tinha ganhado consistência, segundo as más línguas, haja vista se tratar, à época, de novidade na política, um nome não testado nas urnas, e que poderia trazer algum risco para a chapa majoritária. Essa teoria não era esposada pelo Newton, que achava ótimo ter como companheiro de campanha um empresário de renome e melhor ainda, rico. Itamar também parecia satisfeito com a presença do Alencar e com o mesmo dividia interlocução frequente sobre os temas da campanha.

O programa de viagens dos candidatos, Estado afora, nas quatro direções, foi intenso. Itamar era complicado, gostava de comer banana com carne moída e punha segurança à porta dos banheiros, nas paradas de beira de estrada, sempre que recebia qualquer chamado da natureza, fosse sólido ou líquido. E foi numa dessas viagens que o Aluízio Vasconcelos, coordenador da campanha, em conversa descontraída com alguns jornalistas, em mesa de bar, admitiu a possibilidade, que ainda poderia ocorrer, mesmo que remota, de o nome do Alencar não vingar e ser o mesmo substituído no decorrer da campanha, respeitado o prazo imposto pela legislação. Os jornalistas, maldosos, como convém ao exercício da atividade, foram ao êxtase com tal afirmação e publicaram que a campanha do José Alencar era de mentirinha e deram a fonte da informação.

O comitê principal da campanha estava sediado em prédio na avenida Olegário Maciel, em Belo Horizonte. Cheguei ao comitê por volta das 14 horas e me dirigi ao conjunto de salas que abrigava o QG dos trabalhos e comecei a ouvir gritos logo na saída do elevador. Barulho de portas batidas com força e outros tantos sons ininteligíveis, até que avistei o Alencar caminhando apressado pelo corredor, nervoso, com o rosto vermelho e gesticulando bastante agitado. Evitei cumprimentá-lo, porque “em rio que tem piranha, jacaré nada de costas”. Ato contínuo, soube que o nosso candidato ao senado havia tido um destempero emocional, quase um surto, em face das declarações publicadas sobre a sua “candidatura de mentirinha”, e que havia saído no grito com os coordenadores da campanha, quando declarou que só morto abandonaria a sua candidatura senado.

No dia seguinte, através do Adriano Silva, encaminhei carta pessoal ao José Alencar, fazendo ponderações sobre o ocorrido, exaltando a sua liderança e afastando qualquer possibilidade de depreciação do seu nome para o Senado. A carta nada tinha a ver nem com o Newton e sequer com o Itamar, era apenas o meu sincero sentimento de solidariedade. Alencar, segundo o Adriano, ficou muito grato pelas palavras recebidas e chegou, inclusive, a mostrar a referida carta para amigos mais chegados, e se dizia em perfeita sintonia com os meus argumentos. Dias depois, me encontrando em outro momento da campanha, Alencar me abraçou, agradeceu e disse que eu havia trazido temperança para o combate que ele estava decidido a enfrentar.

Itamar Franco, de fato, nasceu com o loló virado para a lua. Naquele momento de ira do Alencar, Newton e Itamar garantiram a vitória da chapa majoritária e condenaram ao ostracismo a candidata de oposição, Júnia Marise, que também concorria ao Senado, mas pelo PDT. Alencar, mantidas as cautelas de estilo, próprias de quem sabe o valor do dinheiro, escancarou o cofre para o publicitário Almir Sales, notório ganhador de eleições, e carregou nas costas o marketing político mais pesado, tornado o jingle “O 15 do Alencar é o 15 do Itamar”, que se tornou, em Minas, mais conhecido do que a Coca Cola e ganhou a eleição e levando a chapa junto. Depois, o que veio depois é sabido por todos, tendo ele sido duas vezes eleito vice-presidente da República, na chapa do Presidente Lula.


Caio Brandão

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1 Comentário

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    Guilherme Hernandez Filho, março 9, 2022 11:08 @ 11:08 Responder

    Caro amigo Caio, você consegue com maestria unir sua experiência de vida com a fluência na escrita. Parabéns por mais esta ótima crônica. Forte abraço.

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