O ministro-chefe da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, tem contado com um apoio político incomum em sua articulação para conquistar os votos necessários à aprovação de sua indicação ao Supremo Tribunal Federal. Trata-se do bispo Samuel Ferreira, liderança evangélica que, nas eleições de 2022, declarou voto em Jair Bolsonaro e, mais recentemente, manifestou apoio à pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado.

A atuação de Ferreira ocorre nos bastidores, com contatos diretos junto a senadores em busca de viabilizar a aprovação de Messias, que precisa de 41 votos para assumir a vaga aberta com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso. O movimento evidencia a complexidade política que envolve a escolha de nomes para a Corte, especialmente em um cenário de polarização e disputa por influência entre diferentes campos ideológicos.

Presidente executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil Ministério de Madureira, Ferreira tem ampliado sua presença no debate político nacional. Em discurso recente, ao apoiar Caiado, defendeu a superação da polarização e afirmou que o país precisa buscar equilíbrio entre os extremos. A posição reforça sua tentativa de dialogar com diferentes correntes políticas, mesmo mantendo vínculos com setores conservadores.

Segundo relatos, o bispo tem realizado ligações a parlamentares desde o fim do ano passado, destacando a formação jurídica e a trajetória institucional de Jorge Messias. Em manifestação pública, Ferreira afirmou que sua atuação tem caráter estritamente institucional e não envolve critérios religiosos. Para ele, a escolha de um ministro do Supremo deve se basear na qualificação técnica, na experiência e no compromisso com a Constituição.

Messias, que é ligado à Igreja Batista, aposta no apoio de parlamentares evangélicos como forma de reduzir resistências políticas à sua indicação. O crescimento dessa bancada no Senado, que ganhou força nas últimas eleições, tem sido visto como fator relevante na definição de votações estratégicas, incluindo a aprovação de autoridades indicadas ao Judiciário.

A movimentação de Ferreira gerou desconforto entre aliados do bolsonarismo quando ele participou de encontro no Palácio do Planalto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o próprio Messias. Na ocasião, o bispo esteve acompanhado do deputado Cezinha Madureira, outro defensor da indicação. O gesto foi interpretado como aproximação com o governo federal, apesar de seu histórico de apoio a Bolsonaro.

Durante o encontro, Lula destacou a importância do trabalho social e religioso realizado pela Assembleia de Deus, em uma sinalização ao eleitorado evangélico. O segmento segue sendo um dos principais desafios políticos do governo, que enfrenta índices elevados de rejeição nesse grupo, conforme pesquisas recentes.

Ferreira afirmou que sua atuação em favor de Messias não decorre de pedido direto do presidente da República. Segundo ele, a iniciativa partiu de sua própria avaliação sobre a qualificação do ministro e sua trajetória no serviço público. O bispo também evitou fazer previsões sobre o resultado da votação no Senado, afirmando confiar no papel institucional dos parlamentares.

Nos bastidores, lideranças evangélicas enxergam na eventual nomeação de Messias uma oportunidade de reforçar um perfil mais conservador dentro do Supremo. A expectativa é que sua presença possa influenciar debates sobre temas sensíveis, como aborto, drogas e direitos da população LGBTQIA+, ainda que cada ministro atue de forma independente.

Caso seja aprovado, Messias ocupará a vaga deixada por Barroso, considerado um dos principais representantes de posições progressistas na Corte. Em decisões recentes, Barroso defendeu pautas como a descriminalização do aborto e a equiparação da homofobia ao crime de racismo, além de integrar maioria em julgamentos sobre drogas para uso pessoal.

Mesmo com a possibilidade de mudança no perfil da vaga, especialistas ressaltam que o Supremo não atua de forma homogênea, e que as decisões são resultado de composições variadas entre os ministros. Ainda assim, a indicação de Messias é vista como estratégica por setores conservadores, que buscam ampliar sua influência no Judiciário.

A articulação liderada por Samuel Ferreira ilustra o papel crescente de lideranças religiosas na política nacional, especialmente em momentos decisivos como a escolha de ministros para o Supremo. Ao transitar entre diferentes campos políticos, o bispo se consolida como um ator relevante nas negociações que envolvem poder institucional e disputa por influência no país.

Foto: Ricardo Stuckert /PR


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