A direção nacional do Partido dos Trabalhadores elevou o tom e passou a ameaçar intervir no diretório do Rio Grande do Sul para assegurar uma aliança com Juliana Brizola, do Partido Democrático Trabalhista. A movimentação expõe um racha na esquerda gaúcha, já que o núcleo estadual do PT insiste em manter candidatura própria com Edegar Pretto ao Palácio Piratini.

O impasse ganhou novos contornos com a possibilidade de o PSOL lançar um nome próprio caso o acordo local seja desfeito. A legenda atualmente apoia Pretto e vê a eventual imposição de uma aliança com o PDT como um fator de instabilidade política no campo progressista.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, classificou a resistência do diretório gaúcho como “etnocentrismo político inaceitável”. Em declarações públicas, ele afirmou que a manutenção de duas candidaturas pode custar caro eleitoralmente e comprometer a estratégia nacional de enfrentamento à direita.

Segundo Edinho, a prioridade deve ser a construção de uma frente ampla capaz de derrotar adversários ligados ao bolsonarismo. Para ele, a união com o PDT é fundamental nesse processo, e a fragmentação do campo progressista enfraquece a competitividade eleitoral. O dirigente ressaltou que as decisões regionais não podem se sobrepor ao cenário nacional.

No Rio Grande do Sul, o cenário eleitoral é considerado desafiador para a esquerda. O deputado Luciano Zucco, do Partido Liberal, aparece à frente nas pesquisas, seguido por Juliana Brizola e Edegar Pretto. Também figura na disputa Gabriel Souza, do Movimento Democrático Brasileiro, apontado como sucessor do atual governador Eduardo Leite, do Partido Social Democrático.

Apesar da pressão da direção nacional, os petistas gaúchos mantêm a defesa da candidatura própria. O argumento é de que a decisão foi tomada de forma democrática, em convenção realizada no ano passado, com apoio de partidos aliados como PSOL, PCdoB, PV, Rede e PSB. A avaliação interna é de que Pretto reúne melhores condições para representar o campo progressista no estado.

O diretório municipal do PT em Porto Alegre reforçou essa posição ao divulgar resolução destacando que o nome de Pretto foi aprovado por unanimidade. A composição da chapa inclui ainda as pré-candidaturas de Paulo Pimenta, do PT, e Manuela d’Ávila, do PSOL, ao Senado.

Pretto, por sua vez, afirma que mantém diálogo com a direção nacional em tom respeitoso, mas sustenta que sua pré-candidatura está consolidada. Segundo ele, sua participação no processo eleitoral atende a uma construção coletiva e está alinhada aos interesses do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no estado.

Enquanto isso, Juliana Brizola intensifica articulações em Brasília. Em fevereiro, ela se reuniu com Lula no Palácio do Planalto, acompanhada do presidente do PDT, Carlos Lupi. Na ocasião, ofereceu ao PT a possibilidade de ocupar as vagas ao Senado em sua chapa, em troca do apoio à sua candidatura ao governo.

A proposta, no entanto, enfrenta resistência entre lideranças petistas locais. O ex-governador Olívio Dutra criticou publicamente partidos que, segundo ele, mantêm vínculos com políticas consideradas neoliberais, em referência indireta ao PDT.

Dentro do PSOL, a avaliação também é de cautela. A deputada federal Fernanda Melchionna afirmou que uma eventual candidatura de Juliana à frente da chapa representaria um cenário de “soma zero” para a esquerda. Segundo ela, há divergências programáticas relevantes entre os partidos, o que dificulta a construção de uma aliança consistente.

O vereador Roberto Robaina reforçou que a parceria com Pretto vem desde eleições anteriores e destacou o desempenho competitivo obtido em 2022. Na ocasião, o petista alcançou votação próxima à de Eduardo Leite, o que, na avaliação do partido, demonstra potencial para crescer na disputa atual.

O impasse no Rio Grande do Sul revela as dificuldades de articulação do campo progressista em um cenário eleitoral fragmentado. A ameaça de intervenção por parte da direção nacional do PT indica que o partido está disposto a priorizar a estratégia nacional, mesmo que isso implique desgaste com suas bases regionais.

Nos próximos meses, a definição sobre a candidatura ao governo gaúcho deverá se tornar um dos principais testes de unidade da esquerda brasileira, com impactos diretos na configuração das alianças para a eleição presidencial e nas disputas regionais.

Foto: Ricardo Stuckert/PR


Avatar

administrator