O som dos tambores, os cortejos das guardas de congado, as manifestações de fé e a força da ancestralidade transformaram Contagem em um grande território de memória e resistência durante a tradicional Festa da Abolição promovida pela Comunidade Quilombola dos Arturos. Realizada entre os dias 8 e 10 de maio, a celebração reuniu moradores, visitantes e representantes de guardas de reinado em uma das manifestações culturais mais importantes de Minas Gerais.

Neste ano, a festividade ganhou significado ainda mais especial com a renovação do termo de fomento firmado entre a Prefeitura de Contagem e a Comunidade Quilombola dos Arturos, por meio do Fundo Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural. O acordo garante repasse de R$ 200 mil para manutenção e preservação das tradições culturais da comunidade.

O investimento, realizado desde 2013, assegura a continuidade do calendário anual de atividades culturais e religiosas de um dos quilombos mais tradicionais da Região Metropolitana de Belo Horizonte. A iniciativa também fortalece ações ligadas à preservação da memória afro-brasileira e ao reconhecimento da importância histórica dos Arturos.

Durante a celebração, o prefeito Ricardo Faria reafirmou o compromisso da administração municipal com a valorização das comunidades tradicionais e da cultura negra em Contagem.

Segundo o prefeito, a preservação do patrimônio cultural e material da cidade continuará sendo prioridade da gestão municipal. Ricardo Faria destacou ainda o apoio permanente às comunidades quilombolas, às guardas de reinado e às manifestações religiosas ligadas à tradição afro-brasileira.

O secretário municipal de Cultura, Gilvan Rodrigues, também ressaltou o trabalho realizado para valorização da memória e da ancestralidade negra no município. De acordo com ele, a Secretaria de Cultura continuará atuando na preservação do patrimônio material e imaterial relacionado às tradições afrodescendentes.

Já o presidente da Associação dos Arturos, José Eustáquio da Silva, afirmou que a comunidade vive um momento de importantes conquistas, como o avanço da regularização territorial e as reformas da capela e da sede da associação. Ele ressaltou ainda que os avanços resultam da união da comunidade com o apoio do poder público.

Entre os participantes, a emoção marcou os 3 dias de celebração. A servidora da Força Aérea Brasileira Daniela Junqueira, de 44 anos, destacou a ligação afetiva construída com a festa desde a infância. Nascida em Contagem e atualmente moradora de São Paulo, ela acompanhou a programação registrando imagens da celebração.

Segundo Daniela, o encontro das guardas e a encenação sobre a escravidão sempre despertam forte emoção. Ela afirmou que o som dos tambores, das congas e músicas tradicionais como “Caindo Fulô” representam memórias profundas ligadas à infância e à convivência com a comunidade.

O estudante Matheus Coutinho, de 17 anos, também ressaltou a importância da Festa da Abolição para conscientização sobre a história do povo negro e combate ao preconceito racial. Para ele, a encenação e os elementos culturais ajudam jovens estudantes a compreenderem de forma mais profunda o sofrimento vivido durante o período da escravidão.

A programação da festa começou na sexta-feira, com o encerramento da novena e o tradicional Ritual do Candombe realizado na Comunidade dos Arturos. No sábado, o levantamento dos mastros reuniu moradores e visitantes na Casa da Cultura Nair Mendes Moreira, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário e na própria comunidade quilombola.

No domingo, as atividades começaram ainda durante a madrugada com a tradicional Matina. Em seguida, ocorreram os cortejos das guardas de Congo e Moçambique dos Arturos e dos representantes dos escravizados até a Igreja do Rosário.

A programação contou ainda com encontros de congados visitantes, encenação sobre a Abolição da Escravatura, Missa Conga, procissão com as imagens de São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário, almoço comunitário, cumprimento de promessas e o tradicional descimento das bandeiras.

A edição deste ano teve como representantes da celebração Everton Eustáquio, presidente da Irmandade; José Bonifácio da Luz, capitão-mor e patriarca; José Maria Maciel, Rei Congo; Maria Lúcia da Silva Santos, Rainha Conga; Antônio Eustáquio da Silva, capitão regente e rei festeiro; e Neuza Maria dos Santos Silva, rainha festeira.

Mais do que uma festividade religiosa e cultural, a Festa da Abolição reafirmou a importância da preservação da identidade quilombola, da memória coletiva e da valorização da cultura afro-brasileira em Contagem e em Minas Gerais.

Foto: João Pedro Alcântara / PMC


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