Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde vivem mais de cinco milhões de pessoas, o abastecimento de água pode se tornar um problema grave nos próximos anos. Um estudo recente aponta que o Parque Estadual da Serra do Rola Moça, um dos principais fornecedores naturais de água para a região, teve 40% de sua vegetação destruída por incêndios florestais desde 1975. Como consequência direta, houve uma perda significativa na capacidade do solo de absorver e reter água.
Os dados revelam que, ao longo de cinco décadas, o parque perdeu cerca de 20% de sua capacidade de infiltração hídrica. Isso significa que a água da chuva, ao invés de penetrar no solo e abastecer os lençóis freáticos, passa a escoar pela superfície. Essa mudança provoca dois efeitos graves: reduz a disponibilidade de água subterrânea e aumenta o risco de enchentes no período chuvoso.
A vegetação mais afetada é a das chamadas “florestas de galeria”, localizadas às margens de cursos d’água e responsáveis por preservar inúmeras nascentes. Estudos mostram que, para cada quilômetro quadrado dessas florestas perdido, mais de 13 milhões de litros de água deixam de infiltrar no solo, o que seria suficiente para abastecer mais de mil pessoas por dia.
O solo exposto acaba sendo tomado por gramíneas invasoras, altamente inflamáveis, que favorecem a propagação de novos incêndios. Essas espécies exóticas, introduzidas após os primeiros ciclos de fogo, impedem a regeneração natural da vegetação nativa e agravam o ciclo de degradação. A recuperação dessas áreas exige intervenções complexas, caras e cuidadosamente planejadas, com uso de espécies vegetais adequadas ao ecossistema de montanha.
A destruição da cobertura vegetal também compromete a regulação climática da região e pode agravar o processo de escassez hídrica. Especialistas alertam que, sem ações efetivas, há risco de colapso no abastecimento. As consequências seriam sentidas no aumento do custo da água tratada, uma vez que a matéria-prima se torna mais difícil de captar e precisa passar por mais etapas de purificação.
A dificuldade de regeneração das áreas queimadas reside no tempo necessário para que as árvores nativas se restabeleçam e voltem a exercer suas funções ecológicas. Em altitudes elevadas, comuns na Serra do Rola Moça, o impacto da devastação é ainda mais severo, e pode se tornar irreversível se não forem adotadas medidas emergenciais de preservação e restauração.
Na região do parque, dois sistemas de captação de água são responsáveis por parte do fornecimento para bairros em cidades vizinhas. Embora representem apenas cerca de 2% do volume total que abastece a Região Metropolitana de Belo Horizonte, essas unidades são fundamentais para comunidades locais e ajudam a aliviar a pressão sobre outros mananciais, principalmente em épocas de estiagem prolongada.
A companhia de abastecimento mantém brigadas de combate a incêndios em parceria com o órgão estadual de florestas e desenvolve ações de preservação por meio de um programa socioambiental focado na proteção e recuperação de microbacias hidrográficas. Esse programa, implementado em centenas de municípios, já destinou mais de 140 milhões de reais para intervenções que visam melhorar a qualidade e quantidade da água nas áreas de captação.
Entre as principais ações realizadas estão o cercamento de áreas de preservação permanente, construção de bolsões para retenção de água de chuva, recuperação de estradas rurais para evitar erosões, e implementação de aceiros que evitam a propagação do fogo em unidades de conservação. Atividades de educação ambiental também fazem parte da estratégia de envolvimento comunitário na proteção dos recursos hídricos.
Além disso, estão em planejamento novas obras para garantir a segurança hídrica da região. Uma das principais iniciativas é a construção de um grande barramento e a revitalização completa de um dos sistemas de abastecimento mais importantes da capital e do entorno. O objetivo é aumentar a capacidade de reserva hídrica e reduzir os impactos causados por eventos climáticos extremos, como longos períodos de seca.
Essas obras, que deverão receber investimentos superiores a 3 bilhões de reais, integram um plano de ação mais amplo para assegurar o fornecimento de água a longo prazo. A intenção é que os recursos permitam não apenas aumentar a disponibilidade hídrica, mas também reduzir os riscos associados à vulnerabilidade ambiental de áreas estratégicas para o abastecimento público.
A restauração da vegetação nativa é apontada como medida indispensável para a recuperação do equilíbrio hídrico. No entanto, essa tarefa exige planejamento técnico rigoroso e financiamento adequado. As plantas escolhidas para o reflorestamento devem ser compatíveis com o solo e o clima locais, evitando espécies que, apesar de aparentarem ser “verdes”, podem agravar o problema, ao consumir grandes volumes de água ou impedir o crescimento de plantas típicas da região.
Embora haja expectativa de colaboração entre entes públicos e privados, especialistas defendem que a restauração ecológica deve seguir critérios científicos e ser acompanhada por órgãos de controle. A participação de empresas que exploram economicamente áreas próximas, como mineradoras, é vista como uma possibilidade viável de financiamento, desde que sob fiscalização adequada.
O desafio está em promover uma cooperação que envolva Estado, iniciativa privada e sociedade civil, de forma transparente e com metas claras. O custo da inação pode ser alto: comprometimento da oferta de água, encarecimento da tarifa e agravamento das desigualdades no acesso ao recurso.
A ameaça ao Parque Estadual da Serra do Rola Moça não é apenas ambiental, mas também social e econômica. O colapso hídrico, antes visto como uma possibilidade distante, começa a se desenhar como um risco real, caso não sejam adotadas medidas urgentes para restaurar o que foi perdido e proteger o que ainda resta.
Foto: Reprodução/TV Globo

