Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiram intensificar o uso político das investigações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master como estratégia eleitoral para desgastar o senador Flávio Bolsonaro, apontado por integrantes do Palácio do Planalto como um dos principais adversários do petista na disputa presidencial. A nova ofensiva ganhou força após recentes derrotas do governo no Congresso Nacional e da operação da Polícia Federal que atingiu o presidente do PP, senador Ciro Nogueira.

A avaliação dentro do governo é de que a associação entre integrantes do Centrão, figuras ligadas ao bolsonarismo e o escândalo envolvendo o Banco Master pode gerar impactos eleitorais importantes. Além de atingir diretamente Flávio Bolsonaro, governistas acreditam que a exposição do caso poderá dificultar uma eventual aliança formal entre a federação formada por União Brasil e PP com a candidatura apoiada pelo clã Bolsonaro.

Ciro Nogueira, que foi ministro da Casa Civil durante o governo Jair Bolsonaro, vinha sendo apontado por setores do PL como um nome considerado ideal para ocupar a vaga de vice em uma possível chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro. O avanço das investigações, entretanto, alterou os cálculos políticos tanto entre aliados do governo quanto dentro da oposição.

Desde o ano passado, integrantes do PT e assessores próximos ao presidente Lula atuam para evitar que a federação União Brasil-PP declare apoio formal à candidatura bolsonarista. A estratégia defendida pelo Planalto era manter os partidos neutros na disputa nacional, permitindo liberdade regional aos filiados e preservando negociações locais com governadores e lideranças estaduais.

Nos bastidores do Congresso, contudo, aliados do governo admitiam que a aproximação entre Flávio Bolsonaro e lideranças do Centrão vinha avançando nas últimas semanas. Integrantes da cúpula do União Brasil chegaram a relatar reservadamente que existia a possibilidade de o apoio ao senador ser oficializado ainda neste mês, especialmente depois das derrotas acumuladas pelo governo no Legislativo.

Pesquisas internas que circularam entre ministros e dirigentes petistas também aumentaram a preocupação do Palácio do Planalto. Os levantamentos apontariam crescimento de Flávio Bolsonaro em cenários eleitorais e maior desgaste político do governo após derrotas recentes em votações consideradas estratégicas.

Diante desse cenário, governistas passaram a intensificar o discurso que relaciona o escândalo do Banco Master a nomes próximos ao bolsonarismo. Poucas horas depois da operação da Polícia Federal contra Ciro Nogueira, o líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta, afirmou que o Congresso deveria evitar qualquer tentativa de acordo político para frear as investigações envolvendo o banco.

Pimenta resgatou ainda a expressão “BolsoMaster”, utilizada por aliados do PT para ligar o caso diretamente ao grupo político de Jair Bolsonaro. Segundo ele, a nova etapa da Operação Compliance Zero revelaria proximidade entre integrantes do antigo governo e pessoas investigadas no escândalo financeiro.

O líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai, também reforçou o mesmo discurso ao afirmar que existiria um “consórcio entre extrema-direita e Centrão”. Segundo o parlamentar, Ciro Nogueira reunia credenciais políticas para compor uma chapa presidencial ao lado de Flávio Bolsonaro antes da operação conduzida pela Polícia Federal.

O ministro da Secretária-geral da Presidência, Guilherme Boulos, seguiu linha semelhante e utilizou as redes sociais para relacionar diretamente o senador piauiense ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Boulos afirmou que Ciro Nogueira seria o “vice dos sonhos” de Flávio Bolsonaro e associou o parlamentar aos pagamentos investigados pela Polícia Federal.

Nos bastidores do governo, aliados de Lula avaliam que a estratégia pode ajudar a melhorar a popularidade da gestão petista. Integrantes do Planalto afirmam que levantamentos recentes mostraram recuperação da avaliação positiva do governo após parlamentares governistas associarem derrotas do Executivo à tentativa de setores do Congresso de conter o avanço das investigações relacionadas ao Banco Master.

A pré-campanha do presidente Lula também já vinha reunindo informações e materiais audiovisuais para reforçar a associação do escândalo à direita e ao bolsonarismo. Grupos ligados ao PT em aplicativos de mensagens começaram a compartilhar vídeos e conteúdos políticos explorando o tema antes mesmo da nova fase da operação policial.

Parte desse material foi apresentada durante encontros internos do partido realizados no mês passado. Nesta semana, iniciativas ligadas ao PT também divulgaram mensagens afirmando que aliados de Bolsonaro estariam diretamente envolvidos nas investigações conduzidas pela Polícia Federal.

Apesar da ofensiva política, integrantes do governo reconhecem que a estratégia ainda exige cautela. O PT continua negociando alianças regionais com partidos do Centrão e teme que ataques mais duros prejudiquem acordos estaduais considerados importantes para a campanha presidencial.

Por isso, existe uma orientação interna para que parte das críticas mais contundentes seja feita principalmente por militantes, parlamentares e grupos ligados ao partido, evitando exposição excessiva de ministros diretamente vinculados ao governo federal.

O Palácio do Planalto também procura evitar acusações de interferência política nas investigações conduzidas pela Polícia Federal. Após a operação desta quinta-feira, houve orientação para que integrantes do governo evitassem comentários públicos sobre as medidas adotadas pelos investigadores contra Ciro Nogueira.

Auxiliares presidenciais avaliam que manifestações mais incisivas poderiam alimentar acusações da oposição de que o governo estaria utilizando órgãos de investigação como instrumento de retaliação política após a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal.

A derrota de Messias no Senado foi considerada uma das maiores derrotas políticas do governo Lula desde o início do mandato. Desde então, integrantes do Planalto passaram a adotar discurso segundo o qual setores do Congresso tentariam limitar investigações relacionadas ao Banco Master e a figuras influentes da política nacional.

Em abril, durante outra operação envolvendo o escândalo, o governo chegou a estimular uma entrevista coletiva com representantes do Ministério da Justiça e da Polícia Federal para destacar ações de combate ao crime organizado. A intenção era demonstrar que o Executivo mantinha apoio às investigações independentemente do alcance político das apurações.

Agora, com o avanço da crise envolvendo Daniel Vorcaro e aliados do Centrão, governistas acreditam que o tema poderá ganhar peso crescente no debate eleitoral dos próximos meses. A oposição acompanha movimentações enquanto partidos avaliam impactos das investigações.

Foto: Renato Wrobel/Lide RJ


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