Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Historicamente, a América do Sul é uma região de paz. O último conflito de proporções aconteceu há mais de 100 anos e ficou conhecido como Guerra do Paraguai (1864-1870). O nome nem é adequado, pois deixa a responsabilidade com o então progressista governante do Paraguai, Solano Lópes, quando se sabe que, por trás dos fatos que levaram ao conflito que arrastou Brasil, Argentina e Uruguai, estava o interesse inglês na estratégica região da bacia do rio da Prata.

Mais recentemente, em 1982, Argentina e Reino Unido se enfrentaram na Guerra das Malvinas (Falklands War, para os ingleses). Vendo o fim se aproximar, a ditadura argentina de então (1976-1983) tentou uma patriotada para prosseguir no poder. Cometeu um tremendo erro de avaliação. Os militares argentinos acreditaram que a doutrina Monroe (1823) era para valer (“a América para os americanos”) e quebraram a cara.

Os Estados Unidos apoiaram incondicionalmente os ingleses e o saldo da guerra não poderia ter sido pior para a ditadura argentina: morte de 649 soldados, contra 255 britânicos e perda do arquipélago.
Recuperar as Malvinas passou a ser bandeira de todos os governos progressistas argentinos desde então. Mesmo aquelas pessoas que julgavam que um punhado de ilhas perdidas no extremo sul do oceano Atlântico não faria qualquer diferença, já mudaram de ideia.

Os extremos sul e norte da América do Sul são regiões riquíssimas em petróleo, no solo e no mar (pré-sal), além da inegável importância geopolítica.

Se são poucos e não nada confiáveis os registros sobre a Guerra do Paraguai e mesmo o das Malvinas, a tensão entre Venezuela e Guiana, que se desenrola nos dias atuais, nos permite acompanhar em tempo real e entender como são criadas as fake news.

Um olhar atento nos permite seguir o caminho delas até a maioria da população e os efeitos que podem produzir. Como se sabe, uma mentira repetida muitas vezes tem tudo para se passar por verdade.

É por isso que convido você, leitor ou leitora, a acompanhar nesses 10 passos que elucidam como são criadas as fake news e os efeitos que podem produzir se não estivermos muito atentos.

PRIMEIRO PASSO – DISTORCER A REALIDADE

As fake news não surgem do nada. São produzidas em laboratórios (a partir de demandas de think tanks controlados por corporações ou empresários bilionários) e envolvem cuidadosa pesquisa em torno da realidade política, econômica, social e cultural que se busca atingir. Pesquisas deste tipo, cujo objetivo é influir na visão das massas, tiveram início na Europa e nos Estados Unidos no início do século passado e não pararam mais.

O desenvolvimento delas chega a ser tão assustador, que transformaram ficções como Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, e O Grande Irmão, de George Orwell (1949), paradigmas da manipulação e do controle, em brincadeiras quase pueris. Haja vista o que tem sido feito a partir da “mineração de dados” dos cidadãos pelas big techs e dos avanços da inteligência artificial.

O ponto de partida para qualquer fake news é a realidade, mesmo que uma “realidade” construída por anos e anos de mentiras.

Há uma disputa desde 1880 entre a Venezuela e a República da Guiana em torno do território denominado Essequibo. A área, rica em minérios e pedras preciosas, está sob controle da Guiana desde que o país se tornou independente, em 1966. Antes disso, era dominada pelo Reino Unido.

A região, no entanto, é conhecida na Venezuela como Guiana Essequiba, ou simplesmente, Essequibo. Ela aparece desde sempre nos mapas oficiais do país como “Zona em Reclamación”, ou seja, um território que está sendo reivindicado.

Na Guiana, Essequibo inclui áreas de seis províncias, das quais duas estão integralmente inseridas e três têm a maior parte de suas superfícies localizadas na região reivindicada pela Venezuela.

Além de histórica, é preciso dizer que a reivindicação da Venezuela não vinha tendo o tratamento adequado pelos organismos internacionais competentes, todos controlados por potência imperialistas.

É sobre essa disputa real e antiga que estão sendo construídas fake news que visam assustam as pessoas, desgastar o governo de Nicolás Maduro e, por tabela, atingir o governo Lula, com a falsa alegação de “risco de guerra na América do Sul”. Como se sabe, Lula estabeleceu como prioridade para o seu terceiro mandato a ênfase na integração da América Latina e tem sido voz decisiva na luta por um mundo multipolar.

Mentirosamente, a mídia corporativa brasileira esconde o histórico desta disputa e atribui unicamente ao presidente venezuelano a responsabilidade pelas tensões.

SEGUNDO PASSO – BOTAR LENHA NA FOGUEIRA

A disputa entre Venezuela e Guiana se encontrava num patamar baixo até a descoberta, a menos de uma década, de enormes reservas de petróleo na região de Essequibo. Por se tratar de área em disputa, nenhum dos dois países deveria ter dado início à exploração. Mas a Guiana, em parceria com companhia estadunidense ExxoMobil e a chinesa CNOOC, passou a explorá-la. A mídia corporativa brasileira esconde essa crucial informação do seu público ao responsabilizar a Venezuela e não a Guiana pela elevação da temperatura política na região.

Ciente do que estava acontecendo, Maduro, decidiu se posicionar. Para tanto, propôs e foi aprovada a realização de um referendo através do qual a população venezuelana seria consultada sobre o assunto.

O referendo aconteceu no último domingo (03/12) e 96% dos votantes deixaram claro que a Venezuela deve lutar nos organismos competentes pela posse da região. Ao todo foram cinco perguntas, sendo que as últimas envolveram negociações internacionais acerca da definição da fronteira.

Foi o que bastou para a mídia corporativa manchetar que Maduro quer anexar a região, distorcendo novamente a realidade e botando lenha na fogueira. De quebra, ainda tenta intrigar Maduro com Lula e deixar Lula em situação delicada em relação à Casa Branca.

TERCEIRO PASSO – A MÍDIA ESCONDE A RAPINAGEM DOS ESTADOS UNIDOS NA VENEZUELA

Não é novidade para as pessoas minimamente informadas que o governo dos Estados Unidos, seja republicano ou democrata, sempre trabalhou para derrubar Hugo Chávez e seu sucessor, Maduro, do poder. As razões são as de sempre: se apoderar do petróleo e assumir o controle da PDVSA, a Petrobras de lá, A Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo e por ser próxima dos Estados Unidos, dispensaria a logística empregada pelo Tio Sam para buscar o óleo negro do outro lado do planeta.

Em nome da cobiça, os Estados Unidos bancaram um golpe de estado fracassado na Venezuela em 2002. Chávez, o então presidente, ficou afastado do poder por 47 horas. Devido à pressão popular e à lealdade dos militares, voltou ao cargo. Desde então, a Casa Branca deu início a uma série de sanções econômicas contra a Venezuela, visando indispor o governo com a população. Chávez morreu de câncer em março de 2013. Maduro tem procurado seguir a mesma trilha, mesmo que sem o brilho e o carisma de Chávez.

Nos últimos cinco anos, Estados Unidos e a Inglaterra intensificaram a pressão contra Maduro. Se não fosse o auxílio da Rússia, do Irã e também da China, possivelmente a economia venezuelana já teria colapsado. A título de exemplo, as sanções contra a Venezuela por parte dos Estados Unidos atingiram em cheio a PDVSA, que ficou sem condições de atuar, devido à ausência de peças para reposição em suas refinarias.

Some-se a isso que em nome da “democracia” e dos “direitos humanos”, o governo Donald Trump, que apoiava o golpista Juan Guaidó como o legítimo presidente venezuelano, congelou, em 2019, ativos da PDVSA nos Estados Unidos. Esses ativos atendem pelo nome de Citgo, uma rede de postos de gasolina com mais de 500 estabelecimentos.

Joe Biden, o atual ocupante da Casa Branca, chegou a admitir flexibilizar essas sanções, na medida em que a Guerra na Ucrânia poderia ter reflexos em termos de suprimento de petróleo no mundo. Mas voltou atrás e parece empenhado em dar sequência ao processo de desestabilização da Venezuela, agora a partir das questões ligadas a Essequibo.

Nada disso você vê na mídia corporativa.

QUARTO PASSO – A MÍDIA ESCONDE A REALIDADE DA GUIANA

A República da Guiana é o terceiro menor país da América do Sul, depois do Uruguai e do Suriname. O que se passava lá sempre foi alvo de profundo desconhecimento por parte das demais populações latino-americanas. Isso se explica pelo fato de as ligações do país se dar com a Inglaterra, mesmo após sua independência formal em 1966. Além de ser a única nação sul-americana em que o inglês é o idioma oficial, a moeda é o dólar guianense e toda a vida econômica e cultural do país, a começar pela capital, Georgetown, tem como referência Londres.

A Guiana, que não existia para o mundo, passou a ganhar destaque a partir de 2020, quando da descoberta de petróleo na chamada Margem Equatorial. É importante lembrar que antes disso, a disputa pelo poder lá foi das mais acirradas, com governos sendo depostos e acusados de corrupção, até que fosse aprovada lei que permitia a exploração quase sem limites do petróleo e demais riquezas por empresas estrangeiras. A mídia corporativa não informa, mas sabe-se que o poder dessas empresas é de tal magnitude, que fica difícil precisar onde começa o governo e onde termina a ação delas.

Em outras palavras, a mídia corporativa esconde o papel que a Guiana joga neste processo. Papel que não é só dela, mas que envolve também o Suriname, ex-colônia holandesa, e a Guiana Francesa, esta última oficialmente uma colônia em pleno século XXI.

QUINTO PASSO – MARGEM EQUATORIAL

Não é possível entender o que se passa na disputa entre Venezuela e Guiana ou entre os interesses estrangeiros localizados na Guiana e a Venezuela sem mencionar a Margem Equatorial. Como a própria Guiana, esta região foi mantida longe dos olhos da população latino-americana por séculos. Só no último ano passou a ser conhecida, mesmo assim de forma enviesada.

As notícias davam conta que a Margem Ocidental é rica em petróleo e que o terceiro governo Lula estava avaliando se deveria ou não explorá-la na parte que cabe ao Brasil. Antes de quaisquer outras considerações, a mídia corporativa, Grupo Globo à frente, passou a fazer campanha contra a exploração, em nome da “defesa do meio ambiente”. Lula e a Petrobras, como sempre foram pesadamente atacados, escondendo-se o que estava em jogo: o interesse das grandes empresas internacionais de petróleo em explorar sozinhas a região.

Da Margem Equatorial, apenas a Guiana Francesa e o Brasil ainda não exploram petróleo na área. Já a Guiana e o Suriname nadam de braçada. A Guiana iniciou a exploração do óleo em 2019. Novas unidades devem entrar em operação em 2025 e a meta da multinacional estadunidense ExxonMóbil é elevar essa produção para 1,2 milhão de barris por dia até 2027. Para efeitos comparativos, em junho, o Brasil produziu 3,2 milhões de barris/dia.

Era para a mídia corporativa estar contando isso para o seu respeitável público, mas ao invés de seguir o dinheiro, ela faz o jogo dos produtores de fake news contra a Venezuela e também contra o Brasil.

SEXTO PASSO – COMO UMA FAKE NEWS É “LAVADA”

Depois de criadas, as fake news precisam chegar ao grande público. É aí que entra o papel da mídia corporativa, ao noticiar o assunto de forma enviesada, privilegiando determinados interesses como se fossem os interesses de todos. Em outras palavras, a mídia corporativa dá legitimidade às fake news, a ponto de poderem ser amplificadas pelas redes sociais, por sites e blogs controlados pelos grandes grupos econômicos.

No caso das redes sociais, acontece o fenômeno da “lavagem” dessas fake news. Elas são difundidas por robôs (bots), em forma de usuários por meio de Inteligência Artificial. Por isso, todo cuidado é pouco antes de aceitar amizade de “pessoas” que tenha poucas postagens e poucas referências. O papel desses robôs é induzir pessoas comuns a acreditar e divulgar mentiras como se fossem verdades.

SÉTIMO PASSO – “DITADORES” E “MOCINHOS”

A qualificação dos atores envolvidos no conflito é essencial. No caso em questão, o governante da Venezuela é definido como “ditador” por jornais como Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, O Globo e revista Veja. Já o governo da Guiana, que tem à frente Irfaam Ali, é tido como “pacato”, sem quaisquer condições de se defender militarmente.

É interessante observar a qualificação, uma vez que essas mesmas publicações nunca chamaram Bolsonaro sequer de “presidente de extrema-direita”. No caso de Essequibo, a mídia brasileira segue os mesmos pressupostos que a orientam em se tratando da Guerra de Israel contra os palestinos: o Hamas é “terrorista” e Israel o “mocinho”. Maduro não é ditador. Foi eleito e reeleito. O Hamas não é um grupo terrorista. Não é mais aceitável que essa mídia continue sendo capacho do imperialismo!
É importante observar que para a difusão das fake news, normalmente há uma parceria não explicitada entre a mídia corporativa e as grandes corporações digitais (big techs). Parceria que envolve o seguinte roteiro: as fake news nascem na mídia tradicional, ganham legitimidade a partir dela e se valem das redes sociais para sua maior difusão e penetração entre as diversas camadas sociais.

Contam, para esta difusão, com o apoio de lideranças de segmentos específicos. No caso brasileiro, setores das igrejas neopentecostais e políticos de extrema-direita estão entre os maiores difusores de mentiras. Detalhe: essas igrejas cresceram 229% nos últimos 10 anos.

Em se tratando das críticas da exploração do petróleo na Margem Equatorial por parte do Brasil, uma parcela dos ditos ambientalistas também está nesta jogada. Alguns de boa fé, outros nem tanto.

Foi para os últimos que o presidente Lula, ao discursar em agosto, no Fórum Empresarial dos BRICS, em Johanesburgo, na África do Sul, deixou claro que não é possível aceitar “um neocolonialismo verde que impõe barreiras comerciais e medidas discriminatórias, sob o pretexto de proteger o meio ambiente”.

OITAVO PASSO – O RESPALDO DOS ESPECIALISTAS DE SEMPRE

É dentro deste contexto que a mídia corporativa entrevista sobre a “tensão entre Venezuela e Guiana” apenas “especialistas” alinhados com o seu ponto de vista. É o que tem feito, por exemplo, a Globo News, a CNN e o Jornal Nacional, da TV Globo. Mais ainda, muitas vezes são estes “especialistas” que pautam questões delicadas como o “risco do conflito evoluir para uma guerra” ou os “interesses políticos de Maduro” para desgastar a posição venezuelana neste momento.

Não resta dúvida de que há interesses políticos tanto da Guiana quanto da Venezuela. Pior ainda: a Guiana tem servido de fachada para a ganância das empresas multinacionais. Mas a mídia só fala que Maduro quer se aproveitar politicamente da situação para uma possível reeleição no ano que vem. Nem uma palavra sobre idêntico comportamento de Biden ou do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Biden, inclusive, está metido em duas guerras em andamento – Ucrânia e Faixa de Gaza – e, pelo visto, agora também diretamente nesta disputa entre dois países da América do Sul.

Como se pode observar, é preciso pensar nas fake news como árvores em uma floresta. Elas acabam se entrelaçando em busca de reforço mútuo.

NONO PASSO – O QUE REALMENTE CONTA

A “floresta” na qual se inserem as fake news envolvendo a tensão entre Venezuela e Guiana inclui algo bem maior: o redesenho do poder internacional. Até o fim da União Soviética, em 1991, duas potências materializam esse poder: Estados Unidos, pelo bloco capitalista, e União Soviética, pelo bloco socialista. O fim da União Soviética possibilitou que os Estados Unidos passassem a se sentir e atuar como única potência global.

Por algumas décadas funcionou, mesmo que a custa de guerras, de exploração neocolonial nos quatro cantos do mundo, em especial na América Latina, que os ianques consideram seu “quintal”. A chamada “onda rosa” na América do Sul só foi possível, porque George Bush estava muito preocupado em sua guerra contra a Al Qaeda, responsabilizada pelo ataque aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, e pela criminalização dos países do “eixo do mal”. De acordo com a doutrina Bush, integravam esse eixo o Irã, o Iraque e a Coreia do Norte. Mas também podem ser incluídos Cuba, Líbia e Síria.

Mais recentemente, dos considerados inimigos dos Estados Unidos passaram a fazer parte também a Venezuela e a Rússia. Em março de 2020, o governo dos Estados Unidos acusou Maduro de tráfico internacional de drogas e ofereceu 15 milhões de dólares por informações que o levassem à prisão. Até onde se sabe, não houve revogação deste pedido e nem quaisquer desculpas.

Nada disso você vê na mídia, que segue criminalizando Maduro e passando pano para Biden.

DÉCIMO PASSO – O DIFICIL PARTO DO MUNDO MULTIPOLAR

Desde a Doutrina Monroe que os Estados Unidos passaram a fazer de tudo para liderar o continente americano, não aceitando o surgimento de qualquer outra liderança na região. Pelo tamanho físico, por sua população, pelas riquezas e desenvolvimento, o Brasil, como diz o economista Paulo Nogueira Batista Júnior, “não cabe no quintal de ninguém”. No entanto, historicamente o Tio Sam tem feito de tudo para manter o Brasil sob o seu controle.

Em governos progressistas, isto nunca funcionou. O suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e o golpe militar contra João Goulart, uma década depois, deixaram nítida a pressão dos Estados Unidos contra o Brasil. Pressão sempre retomada quando um governo procura desenvolver o país sem a tutela do “grande irmão do Norte”. O combate ferrenho que Lula sofreu nos seus dois governos anteriores e o golpe contra Dilma Rousseff, em 2016, são aspectos desta pressão, que está de volta de forma redobrada.

Enquanto o golpista Michel Temer esteve no poder e foi sucedido pelo genocida e extremista de direita Jair Bolsonaro, não havia problema com os Estados Unidos. A mídia dizia que tudo ia bem.

Bastou a vitória de Lula e o Brasil retomar a política externa altiva e ativa, para que os problemas, segundo a mídia, recomeçarem.

A leitura que precisa ser feita é a de que a tensão entre Venezuela e Guiana tem outro alvo bastante preciso: o Brasil e a incontestável liderança internacional de Lula. Não por acaso, estas fake news tentam, de toda maneira, intrigá-lo com os governos da Venezuela e da Guiana. Mais ainda: procuram funcionar como combustível interno para motivar e movimentar grupos golpistas.

Com o Brasil na liderança do G-20 em 2024 e integrando também os principais fóruns internacionais (BRICS, G-77, CELAC), é natural que sua voz ecoe por tudo o Sul Global. Daí, tensões amplificadas artificialmente na fronteira do Brasil podem ser uma forma para criar insegurança junto à população e também complicar a vida de qualquer líder político progressista.

Não dá para deixar passar batida a fake news impulsionada pela mídia brasileira ao insinuar que o governo venezuelano tinha responsabilidade pelo sumiço de um helicóptero da Guiana, que sobrevoava Essequibo. O assunto foi notícia dias seguidos, até que a própria Guiana foi obrigada a reconhecer que a Venezuela não tinha nada com o mau tempo que vitimou a aeronave.

Muitas guerras começaram com insinuações deste tipo e suas consequências foram dramáticas.

Por isso, a tensão entre Venezuela e Guiana vai exigir do governo brasileiro e da nossa diplomacia, habilidade ainda maior do que a normal.

Não se trata apenas da Venezuela e da Guiana. O cerne do problema envolve os Estados Unidos, seus interesses, o Brasil, a liderança de Lula e o nascimento do mundo multipolar.

E a história nos ensina que uma potência, em visível declínio, como os Estados Unidos, sempre está disposta a tudo. Haja fake news para sustentá-la!