O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a demonstrar preocupação com a escalada de tensões entre Estados Unidos e Venezuela e afirmou que pretende intensificar esforços diplomáticos para evitar um conflito armado na região. Em declaração nesta quinta-feira, em Brasília, Lula disse que pretende conversar novamente com o presidente norte-americano, Donald Trump, até a próxima semana, na tentativa de construir uma solução negociada que afaste qualquer hipótese de invasão militar no país vizinho. Atualmente, tropas dos Estados Unidos mantêm presença no entorno do Mar do Caribe, próximo à fronteira venezuelana, sob a justificativa de combate ao narcotráfico.
“Eu estou pensando, antes do Natal, em conversar com o Trump outra vez para saber o que é possível o Brasil contribuir para que a gente tenha um acordo e não uma guerra”, afirmou o presidente, durante café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto. Segundo Lula, a diplomacia deve sempre prevalecer como caminho prioritário para a solução de crises internacionais, especialmente em um continente marcado por históricos de intervenções externas.
O presidente avaliou que a situação atual exige cautela e transparência sobre os reais interesses envolvidos. “Era possível negociar sem guerra. Então, eu fico sempre preocupado com o que está por detrás. Porque não pode ser apenas a questão de derrubar o Maduro. Quais são os interesses outros que a gente tem e ainda não se sabe?”, questionou, ao comentar as motivações norte-americanas para o aumento da pressão militar sobre a Venezuela.
Lula revelou que o tema já havia sido tratado em uma reunião ministerial recente e detalhou que manteve conversas diretas tanto com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, quanto com Donald Trump, na semana passada. Segundo ele, o Brasil se colocou à disposição para atuar como interlocutor, desde que haja interesse das partes envolvidas.
“Falei para o presidente Maduro que, se ele quisesse que o Brasil ajudasse em alguma coisa, ele tinha que dizer o que gostaria que a gente fizesse. E disse ao Trump: ‘Se você achar que o Brasil pode contribuir, nós teremos todo interesse de conversar com a Venezuela, de conversar com vocês, conversar com outros países para que a gente evite um confronto armado aqui na América Latina e na nossa querida América do Sul’”, relatou. Lula destacou ainda que a extensa fronteira terrestre entre Brasil e Venezuela torna o país diretamente interessado na estabilidade regional.
Além da questão geopolítica, o presidente também comentou os impactos econômicos das relações com os Estados Unidos, especialmente a manutenção da tarifa adicional de quarenta por cento sobre parte das exportações brasileiras. Segundo Lula, apesar de a Casa Branca ter retirado a sobretaxa de centenas de produtos no mês passado, cerca de vinte e dois por cento das vendas brasileiras aos norte-americanos continuam sendo afetadas.
“Desde o momento que o presidente Trump fez a taxação, eu sempre defendi que é direito soberano de qualquer país taxar produtos do exterior que entram no seu país se ele entender que aquele país está tendo prejuízo de desenvolvimento por conta das importações. Aqui no Brasil nós vivemos taxando produtos”, afirmou. No entanto, Lula reiterou que discordou publicamente das justificativas apresentadas inicialmente pelo governo dos Estados Unidos.
“O que eu fui contra e disse publicamente é que os motivos pela taxação não eram os verdadeiros. Eu acho que o presidente Trump já reconheceu isso e ainda faltam algumas coisas que nós vamos conseguir reverter”, acrescentou, demonstrando confiança no avanço das negociações comerciais.
O presidente ressaltou que o Brasil permanece na mesa de negociação, com articulação conduzida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelos ministros Fernando Haddad, da Fazenda, e Mauro Vieira, das Relações Exteriores. Ainda assim, Lula frisou que tem atuado pessoalmente para cobrar respostas do governo norte-americano.
“A cada quinze dias eu estou tomando a atitude de mandar uma mensagem pessoal pro Trump, dizendo que está faltando outra coisa, que está devagar tal coisa. Quem engorda o porco é o olho do dono. Se eu fingir que esqueço, ele acha que está tudo resolvido, e não está. Eu tenho que cobrar, porque eu tenho interesse”, concluiu o presidente, ao defender uma postura ativa do Brasil tanto na diplomacia regional quanto nas negociações econômicas internacionais.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

