As relações entre Brasil e Estados Unidos devem ser conduzidas pelo pragmatismo após as eleições de outubro, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito. Essa é a avaliação de quatro ministros do primeiro escalão do governo, que acompanham de perto os desdobramentos da crise diplomática entre Brasília e Washington e avaliam reservadamente os próximos passos da relação bilateral.
Na avaliação desses auxiliares, um dos primeiros sinais de que as tensões podem ser administradas ocorreu na conversa telefônica de uma hora e vinte minutos entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no último dia 21. O diálogo teve como principal tema o tarifaço imposto pela Casa Branca sobre produtos brasileiros.
Durante a conversa, Lula classificou como “infundadas” as alegações utilizadas por autoridades americanas para justificar parte das medidas comerciais, incluindo referências ao Pix e ao desmatamento no Brasil. O presidente brasileiro também defendeu a posição do país diante das tarifas e reforçou a necessidade de diálogo entre os dois governos.
Trump, por sua vez, questionou Lula sobre as eleições brasileiras de outubro. O presidente respondeu que o processo eleitoral ocorre de maneira regular, segura e confiável.
Outro movimento interpretado pelo governo brasileiro como sinal de distensão ocorreu após a ligação. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, telefonou para o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e marcou uma reunião por videoconferência para esta segunda-feira (31). O encontro deverá tratar das medidas comerciais e das possibilidades de negociação entre os dois países.
Lula e Trump também devem se encontrar, ainda que de forma indireta, durante a abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, marcada para 22 de setembro. Os dois presidentes discursarão em sequência, repetindo uma situação semelhante à do ano passado. Na ocasião, Trump chegou a elogiar a “excelente química” que teria desenvolvido com Lula.
No entorno presidencial, integrantes do governo também analisam os efeitos políticos da postura de Trump em outros países. Petistas citam como exemplo as eleições do Canadá, realizadas em 2025, nas quais a política comercial agressiva adotada pelo presidente americano teria contribuído para fortalecer o Partido Liberal, de centro-esquerda.
O mesmo raciocínio é aplicado à Austrália. No ano passado, o primeiro-ministro Anthony Albanese, do Partido Trabalhista, foi reeleito, derrotando Peter Dutton, político alinhado ideologicamente a Trump. Para auxiliares de Lula, esses episódios indicam que confrontos promovidos pelo presidente americano podem acabar produzindo efeitos eleitorais contrários aos seus aliados.
A estratégia petista é utilizar esse cenário durante a campanha brasileira. Lula pretende explorar o discurso de defesa da soberania nacional como contraponto ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado pelas pesquisas como um dos principais adversários na disputa presidencial e aliado de Trump.
O programa de governo do PT utiliza a palavra “soberania” 31 vezes e propõe enfrentar “ameaças externas que desconsideram os interesses do povo brasileiro”. O documento, porém, não cita nominalmente Trump ou os Estados Unidos.
Um ministro do governo Lula, ouvido reservadamente, avalia que a política de Trump pode produzir efeitos que ultrapassam a disputa comercial. Segundo ele, o governo americano pode contribuir para uma eventual reeleição de Lula e, ao mesmo tempo, aproximar ainda mais o Brasil da China.
Outro ministro afirma que, caso Lula conquiste um novo mandato, Trump terá interesse em preservar uma relação pragmática com o Brasil, considerado a maior economia da América Latina. Na avaliação desse grupo, o ambiente de confronto tende a perder força depois da votação.
O cálculo também considera as eleições legislativas americanas de 3 de novembro. O pleito poderá alterar a correlação de forças no Congresso dos Estados Unidos e fazer com que Trump perca para os democratas a maioria que atualmente possui na Câmara e no Senado.
Um dos ministros ouvidos resumiu o cenário dizendo que Trump corre o risco de se transformar em um “pato manco”, expressão utilizada nos Estados Unidos para designar presidentes que entram na etapa final do mandato com poder político reduzido, especialmente quando perdem apoio no Congresso.
Após o retorno de Trump à Casa Branca, auxiliares de Lula passaram a lembrar o precedente das relações entre Brasil e Estados Unidos durante o governo George W. Bush, entre 2001 e 2009. Apesar das diferenças políticas, Brasília e Washington mantiveram canais de diálogo em temas de interesse comum.
Naquele período, o então assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, defendia que a relação entre os dois países deveria ser baseada em “pragmatismo e respeito mútuo”. Na avaliação de integrantes do governo Lula, esses dois elementos ainda não predominam na relação atual, mas podem voltar a orientar a diplomacia depois das eleições.
Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

