A Polícia Federal afirmou ter encontrado elementos que apontam o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como interlocutor direto do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nas negociações para financiar Dark Horse, filme sobre a trajetória pessoal e política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo os investigadores, Flávio teria participado de cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e conversas sobre o andamento das filmagens. As informações aparecem em representação encaminhada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, no inquérito que apura supostos crimes relacionados ao Banco Master.

Os documentos, enviados ao gabinete do relator em 8 de julho, tiveram o sigilo retirado na quinta-feira (10). A PF sustenta que as mensagens analisadas indicam a participação do senador na busca pelos aportes financeiros e no acompanhamento da produção cinematográfica.

Conversas extraídas do celular de Vorcaro mostram que, em dezembro de 2024, o publicitário Thiago Miranda teria organizado uma reunião entre o ex-banqueiro e Flávio para tratar do “filme do presidente”. Registros posteriores indicam que o deputado Mario Frias, apontado como idealizador do projeto, também participaria do encontro.

Em janeiro de 2025, Vorcaro perguntou a Fabiano Zettel sobre o pagamento destinado ao filme. Ao saber que a transferência não tinha sido realizada, o então controlador do Master respondeu que o compromisso seria o mais importante e que não poderia ocorrer nova falha.

Posteriormente, Miranda informou que Flávio e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro pretendiam marcar outra reunião a respeito da produção. A PF registrou ainda o envio de uma captura de tela atribuída a Eduardo com orientações sobre a administração dos recursos nos Estados Unidos.

Em agosto de 2025, segundo a representação, começaram as conversas diretas entre Flávio e Vorcaro. Mensagens do dia 20 daquele mês sugerem que ambos teriam realizado um encontro presencial.

No mês seguinte, o senador enviou um áudio cobrando os pagamentos. De acordo com a PF, Flávio demonstrou preocupação com um possível descumprimento de compromissos assumidos com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e disse que tentaria resolver o problema.

Os registros indicam a realização de outras reuniões. Em 22 de outubro, Flávio informou ao ex-banqueiro que as gravações estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado ao limite financeiro. O senador teria solicitado que Vorcaro avisasse caso não pudesse fazer o aporte, para que outra solução fosse encontrada rapidamente. O empresário respondeu que resolveria a situação.

Na mesma ocasião, Flávio convidou Vorcaro para jantar em São Paulo com o ator principal e o diretor do filme. Dias depois, Thiago Miranda voltou a cobrar o ex-banqueiro e afirmou que o pagamento anunciado ainda não havia chegado ao destino, conforme a representação policial.

Em 7 de novembro, o senador enviou um vídeo a Vorcaro e afirmou que a produção somente estaria acontecendo devido à ajuda do empresário, apesar das cobranças relacionadas à falta de pagamentos.

A PF também destacou uma tentativa de contato ocorrida em 16 de novembro, na véspera da primeira fase ostensiva da Operação Compliance Zero. Flávio telefonou para Vorcaro e depois enviou uma mensagem em tom de apoio, pedindo que o ex-banqueiro lhe desse uma orientação sobre a situação.

A representação não informa se todos os valores prometidos foram efetivamente transferidos nem define a origem final dos recursos usados no longa-metragem. A investigação procura reconstruir o caminho do dinheiro, identificar os responsáveis pelas operações e verificar se houve prática de crimes financeiros. Flávio Bolsonaro e os demais mencionados poderão apresentar suas versões e contestar os elementos reunidos. Cabe ao Ministério Público avaliar posteriormente se existem fundamentos para oferecer acusação.

No dia seguinte, Vorcaro foi preso quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Dubai. A prisão ocorreu no contexto da investigação sobre o Banco Master. Os elementos reunidos pela PF fundamentam a apuração, mas não representam condenação nem conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos citados.

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado


Avatar

administrator

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *