O Palácio do Planalto reagiu com “irritação”, segundo Andréia Sadi, do g1, à operação deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira (23) contra empresários que, em um grupo de WhatsApp, defenderam um golpe de Estado no Brasil caso o ex-presidente Lula (PT) vença a eleição.

A operação partiu de uma determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que determinou buscas e apreensões, o bloqueio das contas bancárias dos empresários, o bloqueio das contas dos investigados nas redes sociais, a tomada de depoimentos e quebra de seus sigilos bancários.

Dois fatores aumentaram a revolta do Planalto com a operação: 1) ela acontece no mesmo dia em que Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), se reunirá com o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira; 2) a inclusão de Luciano Hang, dono das lojas Havan e aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro (PL), no rol de investigados foi vista como “provocação”.

Os mandados estão sendo cumpridos em cinco estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Ceará.

São alvos da operação:

Foram alvos da operação de busca e apreensão desta terça: Luciano Hang, da Havan – dois endereços em Brusque (SC) e um em Balneário Camboriú (SC); José Isaac Peres, da rede de shopping Multiplan – no Rio de Janeiro; Ivan Wrobel, da Construtora W3 – no Rio de Janeiro; José Koury, do Barra World Shopping – no Rio de Janeiro; Luiz André Tissot, do Grupo Serra – em Gramado (RS); Meyer Nigri, da Tecnisa – em São Paulo; Marco Aurélio Raimundo, da Mormaii – em Garopaba (SC); Afrânio Barreira, do Grupo Coco Bambu – em Fortaleza

Quem são e o que fazem os empresários bolsonaristas que defenderam golpe:

José Koury, do Barra World Shopping

José Koury é dono do Barra World Shopping, localizado no Recreio dos Bandeirantes, um bairro nobre da zona oeste do Rio de Janeiro, perto da Barra da Tijuca. Segundo a Riotur, empresa de turismo da capital fluminense, “é o primeiro shopping temático do mundo que reproduz a arquitetura e os principais monumentos de vários países”, como a Torre Eiffel, de Paris e o Big Ben, de Londres.
O shopping tem 400 lojas, praça de alimentação, arena de Air Soft, escola e clube de tiro e um campus da Universidade Estácio.

Afrânio Barreira, do Coco Bambu

Afrânio Barreira Filho é fundador da rede de restaurantes Coco Bambu, conhecido pelos pratos com frutos do mar. Engenheiro civil por formação, Barreira começou no ramo de alimentação em 1989, com a inauguração do Dom Pastel, em Fortaleza. A unidade serviu de inspiração para a criação do primeiro restaurante Coco Bambu, em 2001, também na capital cearense. Hoje, de acordo com o site da empresa, já são 64 lojas em todo o Brasil. No ano passado, o Grupo Coco Bambu teve faturamento de mais de R$ 1 bilhão.

Não é a primeira vez que Barreira se manifesta favoravelmente ao governo Bolsonaro. Em 2020, em meio à primeira onda de covid-19 no Brasil, o empresário fez coro à posição do presidente, defendendo o relaxamento das medidas de isolamento social, necessárias para conter a disseminação do vírus. Ele também disse ter usado hidroxicloroquina para se tratar da doença, ainda que naquele momento não houvesse comprovação de sua eficácia. Hoje, é sabido que o medicamento não funciona contra o coronavírus.

Mais recentemente, em maio deste ano, Barreira foi alvo de xingamentos por parte de Ciro Gomes (PDT), adversário de Bolsonaro nas eleições. Em entrevista a um canal do YouTube, Ciro chamou o empresário de “vagabundo” e “sonegador” de impostos. O Coco Bambu, por meio da sua assessoria, negou as acusações.

Marco Aurélio Raymundo (ou Morongo), da Mormaii

Marco Aurélio Raymundo, o Morongo, é médico pediatra formado pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e fundador da Mormaii, uma rede de lojas de roupas e artigos de surfe. A empresa foi criada na década de 1970, quando Morongo se mudou de Porto Alegre para Garopaba (SC) com a mulher e seu primeiro filho. Com a dificuldade de surfar no mar gelado do litoral catarinense, o empresário teve a ideia de costurar para si mesmo uma roupa de neoprene. Começou assim seu negócio. No início dos anos 2010, Morongo chegou a passar a fábrica para um amigo, mas depois voltou a ela. “Quando cheguei a certa idade, pensei em me retirar e permitir que outros seguissem o caminho. Mas tive que voltar, e trabalho tão forte quanto antes: descobri que o trabalho tem um lado terapêutico do qual não estava me dando conta”, disse o empresário em entrevista à Forbes Brasil, em 2021.

Hoje, a Mormaii tem mais de 30 franquias, 15 estúdios fitness, 100 atletas — entre patrocinados e apoiados — e “dezenas de eventos realizados”, de acordo com o site oficial da empresa. Em 2020, seu faturamento foi estimado em R$ 350 milhões pelo mercado.

André Tissot, da Sierra Móveis

Luiz André Tissot, que vem de uma família com tradição na manufatura de artigos de madeira na Serra Gaúcha, é dono da Sierra Móveis, especializada em móveis de luxo. Fundada em 1990 em Gramado (RS), a empresa tem 72 lojas em todo o Brasil e está presente em mais oito países, incluindo Argentina, Chile, Paraguai e Peru. Em agosto do ano passado, à Exame, o empresário disse projetar crescimento de 30% em 2021, impulsionado por uma maior preocupação das pessoas, em meio à quarentena e ao isolamento social, com o bem-estar dentro de casa. “A decoração de ambientes ganhou uma relevância única para clientes de todos os segmentos, sobretudo os de maior poder aquisitivo“, analisou.

Para 2022, a empresa planejava abrir uma loja em Miami, nos Estados Unidos, e outra em Estoril, em Portugal.

Respostas

José Koury, do Barra World, negou que defenda um golpe, mas acrescentou em seguida que “talvez preferiria” a ruptura à volta de Lula à Presidência. “Vivemos numa democracia e posso manifestar minha opinião com toda liberdade. Não disse que defendo um golpe de Estado, e sim que talvez preferiria isso a uma volta do PT. Para mim, a volta do PT será um retrocesso enorme para a economia do país“, declarou.

Já Afrânio Barreira, que respondeu à mensagem de Koury com uma figurinha de aplausos, disse desconhecer qualquer apoio a um golpe e que nunca se manifestou a favor de qualquer conduta que não seja democrática. Ele também defendeu que a democracia é “a chave para a construção de um Brasil melhor” e afirmou que valoriza o direito ao voto.

“Com frequência me manifesto com reações em ’emoticon’ a alguma mensagem, sem necessariamente estar endossando seu teor, ou ter lido todo o seu conteúdo. São centenas de grupos, milhares de mensagens e publicações para serem lidas e respondidas todos os dias. Dito isto, ratifico que meu apoio é pelo processo eleitoral que começou neste mês de agosto”, acrescentou o dono do Coco Bambu.

Marco Aurélio Raymundo (Morongo), da Mormaii, também negou que tenha apoiado um golpe de Estado. “Sem acesso ao conteúdo ou à matéria que referes, informo que não apoiei, não apoio e não apoiarei qualquer ato ilegítimo, ilegal ou violento, e destaco que uso de figuras de linguagem que não representam a conotação sugerida“, respondeu.

Sigo tranquilo, pois estou ao lado da verdade e com a consciência limpa. Desde que me tornei ativista político prego a democracia e a liberdade de pensamento e expressão, para que tenhamos um país mais justo e livre para todos os brasileiros. Eu faço parte de um grupo de 250 empresários, de diversas correntes políticas, e cada um tem o seu ponto de vista. Que eu saiba, no Brasil, ainda não existe crime de pensamento e opinião. Em minhas mensagens em um grupo fechado de WhatsApp está claro que eu NUNCA, em momento algum falei sobre Golpe ou sobre STF. Eu fui vítima da irresponsabilidade de um jornalismo raso, leviano e militante, que infelizmente está em parte das redações pelo Brasil”, declarou Luciano Hang, da Havan.

Ivan Wrobel, da Construtora W3, endossou nota enviada à época da divulgação da matéria. “O cenário não mudou, o Sr Ivan tem um histórico de vida completamente ligado à liberdade. Em 1968 foi convidado a se retirar do IME por ser contrário ao AI5. Nada na vida dele pode fazer crer que o posicionamento daquele momento tenha mudado. Colaboraremos com o que for preciso para demonstrar que as acusações contra ele não condizem com a realidade dos fatos.”

A defesa de Luiz André Tissot, do Grupo Serra, informou que “a empresa e o presidente da companhia não irão se manifestar sobre o tema”.

Independência do Brasil

Uma das perguntas que a Polícia Federal, que cumpre mandados de busca contra ricos empresários bolsonaristas que defenderam golpe de Estado em seu grupo de WhatsApp, pode ajudar a responder é se eles estão financiando as micaretas golpistas convocadas para o 7 de setembro por Jair Bolsonaro e seus aliados. Ou seja, se estão ajudando o bolsonarismo a sequestrar as comemorações de 200 anos da Independência do Brasil e atacar a democracia a fim de saciar os interesses eleitorais do presidente da República.

Há muitas dúvidas que essa investigação pode esclarecer. As fortunas desses empresários vêm sendo empregadas para o impulsionamento de conteúdos contra urnas eletrônicas e o sistema eleitoral? O dinheiro deles é investido no ataque às instituições democráticas e seus integrantes? Recursos estão sendo gastos para a promoção das mesmas ideias que eles compartilhavam em seu grupo de mensagens?

Também há o temor de que empresários bolsonaristas tenham se organizado para impulsionar ilegalmente, durante o período eleitoral, conteúdos contra o Tribunal Superior Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal e adversários do presidente da República, tal como ocorreu em 2018.

A depender do que for apreendido durante as operações de busca, é possível que haja pedidos de prisão, informa um dos investigadores.

Matéria em atualização


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