A pré-candidatura do senador Carlos Viana ao governo de Minas não é uma novidade: já havia sido aventada em 2017, e na atual conjuntura, era tida como certa desde os últimos meses de 2021. Entretanto, quando chegou o último dia no qual era possível a troca de partido, o senador Viana deixou subitamente o MDB pelo PL, anunciando seu protagonismo no palanque oficial da campanha pela reeleição de Jair Bolsonaro em Minas Gerais.

Essa reviravolta, que não vai imprimir seus sinais nas pesquisas eleitorais no curto prazo, altera as estruturas da liderança de Romeu Zema nas intenções de voto para governador de Minas.

Cultivando um posicionamento dúbio em relação a Bolsonaro, Zema vinha oscilando entre o apoio aberto e o distanciamento sanitário em relação ao presidente: buscava manter o apoio dos eleitores bolsonaristas, consolidando uma direita unida em apoio a seu governo, porém evitava se contaminar com o desgaste que afetava Bolsonaro em relação a alguns temas específicos.

Assim, quando movimentos de governadores produziam cartas de repúdio a Bolsonaro, Zema era um dos poucos a não subscrever tais protestos, chamando-os de politicamente motivados; por outro lado, foram várias as situações nas quais Zema contradisse Bolsonaro, especialmente no que se refere à gestão da pandemia. Mesmo se dizendo avesso à política e aos políticos, Zema exerceu um pragmatismo tão elástico que deixaria orgulhoso qualquer líder do chamado “centrão” do Congresso Nacional.

A definição oficial dos personagens no campo bolsonarista tira de Zema o espaço para seguir nessa manobra: com uma nova alternativa na direita, o público que apoiava Zema – por falta de opção – agora deve ser dividido com Viana.

À medida que a imagem de Viana for progressivamente associada à de Bolsonaro, os eleitores fiéis ao presidente devem automaticamente transferir seu apoio ao senador. Em uma conta conservadora, estima-se que algo entre 15% e 20% das intenções de voto devem passar a compor a base de apoio de Carlos Viana – sendo esses eleitores, muito provavelmente, parte do grupo que declarava apoio à reeleição de Zema nas últimas pesquisas.

Tal transmissão de votos ganha mais intensidade e segurança devido à questão religiosa – um componente comum entre os eleitores bolsonaristas, com o qual Viana dialoga com naturalidade e consistência desde antes de se iniciar na política.

Considerando que, nas últimas pesquisas o senador Viana já apresentava 5% das intenções de voto, a herança do eleitorado bolsonarista o colocaria em pé de igualdade com o atual governador, na disputa por uma vaga no segundo turno contra Alexandre Kalil.

Um fator decisivo nesse processo vai ser a consolidação da diferença clara entre Zema e Viana aos olhos do eleitor mineiro de direita: assim, evita-se a formação de uma chapa mista, como aquelas vistas no passado recente – a exemplo da Lulécio de 2006 e da Dilmasia de 2010. Para evitar esse risco, portanto, Carlos Viana vai ter que mostrar desde o início que conhece muito bem a Funed.