Uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes passou a ser apontada por integrantes do Partido Liberal como um dos principais obstáculos para a gestão da crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Desde janeiro, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, está proibido de se encontrar pessoalmente com o ex-presidente Jair Bolsonaro, por determinação judicial relacionada às investigações da chamada trama golpista.
A restrição ganhou peso político nas últimas semanas, após a divulgação de mensagens, áudios e denúncias envolvendo supostos repasses milionários ligados ao filme “Dark Horse”, produção associada ao universo político bolsonarista. O caso provocou forte desgaste na pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e intensificou disputas internas dentro do PL.
Nos bastidores, dirigentes do partido avaliam que Valdemar seria a principal figura capaz de convencer Jair Bolsonaro a reconsiderar a manutenção da candidatura do filho ao Palácio do Planalto. Parte da cúpula partidária prefere a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro como alternativa eleitoral, considerando que ela teria menor desgaste político diante do avanço das investigações.
Segundo aliados, Valdemar nunca demonstrou disposição de confrontar publicamente Jair Bolsonaro, mas interlocutores afirmam que ele considera Michelle uma candidatura eleitoralmente mais viável neste momento. O dirigente costuma lembrar que foi a força política de Bolsonaro responsável pela ampliação da bancada do PL e pelo crescimento do fundo partidário da legenda.
A impossibilidade de encontros entre Valdemar e Bolsonaro fez com que o ex-presidente passasse a receber informações políticas principalmente por meio da imprensa, dos filhos e de Michelle. O problema, segundo integrantes do partido, é que os diferentes grupos próximos ao ex-presidente vivem uma disputa silenciosa pelo controle do espólio político bolsonarista.
Mesmo reconhecendo que Jair Bolsonaro dificilmente desistiria da candidatura do filho, dirigentes do PL avaliam reservadamente que uma conversa direta com Valdemar poderia produzir uma reflexão mais pragmática sobre os impactos da crise atual. O ex-presidente permanece em prisão domiciliar desde março deste ano, após agravamento de seu quadro de saúde, mas continua submetido às restrições impostas pelo Supremo.
Atualmente, Bolsonaro pode receber apenas visitas de familiares, advogados e integrantes de sua equipe médica. Lideranças partidárias, parlamentares e dirigentes do PL seguem impedidos de manter contato presencial com ele.
Dentro do partido, há críticas diretas ao ministro Alexandre de Moraes. Integrantes da legenda afirmam que as restrições judiciais dificultam a articulação política da direita justamente em um momento considerado decisivo para a eleição presidencial de 2026.
O desgaste da campanha de Flávio Bolsonaro ficou mais evidente após a divulgação de pesquisa Datafolha mostrando crescimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em cenários de segundo turno. O levantamento indicou Lula com quarenta e sete por cento das intenções de voto contra quarenta e três por cento do senador bolsonarista. Na pesquisa anterior, ambos apareciam tecnicamente empatados.
A proibição envolvendo Valdemar Costa Neto foi determinada por Moraes em janeiro, pouco depois da transferência de Jair Bolsonaro para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”. Na ocasião, o ministro considerou inadequado permitir visitas do dirigente partidário porque ele também aparecia vinculado às investigações relacionadas aos atos antidemocráticos.
Em novembro de 2024, Valdemar chegou a ser indiciado pela Polícia Federal no âmbito das investigações da trama golpista. Posteriormente, a Procuradoria-Geral da República decidiu não apresentar denúncia formal contra o dirigente, o que foi interpretado como sinal de alívio dentro do bolsonarismo.
No entanto, meses depois, uma nova decisão do Supremo reabriu investigações envolvendo o presidente do PL. O caso está relacionado à contratação do Instituto Voto Legal, entidade que sustentou juridicamente as tentativas do partido de questionar o funcionamento das urnas eletrônicas após as eleições presidenciais.
O engenheiro Carlos Rocha, responsável pelo instituto, acabou condenado pelo STF. As investigações reforçaram o entendimento de Moraes de que Valdemar continuava ligado aos fatos investigados, justificando a manutenção das restrições de contato com Jair Bolsonaro.
Curiosamente, antes de se tornar alvo das investigações, Valdemar Costa Neto chegou a atuar em alinhamento político com Alexandre de Moraes em episódios envolvendo o debate sobre voto impresso. Naquele momento, o dirigente partidário articulou mudanças na representação do PL em uma comissão legislativa que analisava alterações no sistema eleitoral brasileiro.
Agora, aliados do bolsonarismo avaliam que a falta de interlocução direta entre Valdemar e Bolsonaro ampliou o isolamento político do ex-presidente e reduziu a capacidade de reação da campanha de Flávio Bolsonaro diante do avanço da crise envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Foto: Gustavo Moreno/STF

