Os chanceleres do Mercosul reuniram-se na quarta-feira em Montevidéu para tratar de assuntos estratégicos referentes ao funcionamento interno do bloco sul-americano. O encontro diplomático, convocado formalmente pela chancelaria do Uruguai, estendeu-se por mais de três horas e contou com a presença ostensiva de representantes da Argentina, do Brasil, do Paraguai e da Bolívia. Apesar do ambiente de diálogo qualificado pelas autoridades locais como plenamente fraterno, o grupo de países ainda não conseguiu chegar a um acordo definitivo referente à divisão das cotas de exportação com benefícios tarifários direcionadas ao mercado da União Europeia.
A reunião ocorreu em meio a um cenário marcado por recentes atritos diplomáticos na região. As fricções intensificaram-se no mês de agosto após declarações diretas do presidente argentino Javier Milei direcionadas ao chefe de Estado brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. O episódio resultou na convocação de retorno a Buenos Aires do embaixador argentino baseado em Brasília. Contudo, o chanceler uruguaio Mario Lubetkin ressaltou ao término da conferência que as divergências políticas bilaterais não afetaram os trabalhos técnicos ou a fluidez das conversas do organismo regional.
Durante o diálogo diplomático multilateral, os ministros das Relações Exteriores avançaram em aspectos operacionais, mas não alcançaram a unanimidade indispensável para selar o modelo de distribuição das cotas comerciais oferecidas pelo bloco europeu. A proposta em discussão prevê que os próprios países do Mercosul estabeleçam como será fatiado o volume total exportável com tarifas reduzidas. Atualmente, os governos da Argentina, do Brasil e do Uruguai demonstram maior convergência de propostas, ao passo que a delegação do Paraguai mantém ressalvas que dificultam a conclusão de um pacto unânime. Diante da falta de diretrizes fixadas, a distribuição atual das cotas é regulada estritamente por ordem de chegada do fluxo de mercadorias.
Transcorridos quatro meses do início da aplicação provisória do tratado comercial entre os membros fundadores do Mercosul e os países europeus — negociação histórica que levou mais de duas décadas para ser concluída —, a vigência do acordo ainda depende do encerramento de disputas judiciais em tribunais europeus. Com a intenção de solucionar os entraves operacionais e finalizar o impasse do sistema de cotas de forma definitiva, os diplomatas acordaram a realização de uma nova rodada presencial de reuniões em Montevidéu no período de 45 a 60 dias.
Foto: Eitan Abramovich / AFP

