Depois da derrota na eleição interna da Rede Sustentabilidade, aliados da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, recorreram à Justiça para denunciar supostas irregularidades ocorridas durante o 6º Congresso Nacional do partido. O pleito, realizado no domingo (14), terminou com a vitória do grupo liderado por Heloísa Helena e a eleição do secretário de Relações Institucionais de Belo Horizonte, Paulo Lamac, como novo porta-voz da legenda.

A disputa interna reacendeu tensões antigas entre as duas principais correntes do partido. Em nota assinada por Marina, Giovanni Mockus, Zé Gustavo e Iaraci Dias — principais nomes da ala derrotada — o grupo declarou que tomará “todas as medidas cabíveis, no campo político e jurídico, para que essas denúncias sejam devidamente investigadas”.

Segundo os aliados da ministra, 43% dos delegados vinculados à chapa apoiada por Marina foram arbitrariamente impedidos de votar, o que teria comprometido a legitimidade do resultado. Apesar da derrota, a ala comemorou a conquista de uma das duas vagas na porta-voz do partido, com a eleição de Iaraci Dias para dividir a função com Lamac, conforme o estatuto da sigla, que prevê uma liderança compartilhada entre um homem e uma mulher.

O clima de instabilidade antecedeu o congresso. A ala de Marina chegou a ingressar na Justiça com pedido de liminar para suspender o evento, mas a medida foi derrubada poucas horas antes do início da votação. A chapa “Rede pela Base”, ligada a Heloísa Helena, conquistou 76% dos votos dos delegados, enquanto a “Rede Vive”, apoiada por Marina, obteve 24%.

Nos últimos meses, o partido enfrentou disputas jurídicas em pelo menos cinco estados — Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Espírito Santo — onde aliados de Marina alegam ter identificado irregularidades, como filiações realizadas sem autorização dos envolvidos. Esse cenário tem sido apontado como um dos principais fatores para a derrota da corrente vinculada à ministra.

Na Bahia, o embate atingiu seu ápice com a realização de duas convenções paralelas. O grupo de Marina utilizou o espaço previamente reservado para a reunião, enquanto a ala de Heloísa se reuniu no saguão do hotel. Durante o impasse, um dos apoiadores de Heloísa chegou a incitar vaias contra Marina, mesmo com sua ausência no evento.

A cisão entre Marina Silva e Heloísa Helena é antiga e remonta a 2022, revelando divergências profundas sobre a orientação ideológica da Rede. Marina é defensora de uma linha que combina desenvolvimento sustentável com práticas de mercado, enquanto Heloísa sustenta um modelo “ecossocialista”, de crítica mais radical ao sistema econômico. Essas visões distintas têm influenciado a construção das políticas do partido e dividido seus filiados.

Outro ponto sensível é a relação com o governo federal. Marina, hoje ministra do Meio Ambiente, integra a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já Heloísa mantém postura crítica ao Partido dos Trabalhadores desde que foi expulsa da legenda, em 2003, por se opor à reforma da Previdência proposta no primeiro mandato de Lula.

Fundada em 2013 por Marina Silva, a Rede Sustentabilidade nasceu com o propósito de oferecer uma alternativa que se diferenciasse do alinhamento automático à oposição ou à base governista. Em 2014, Marina disputou a Presidência pelo PSB e, fora do segundo turno, apoiou Aécio Neves (PSDB) contra Dilma Rousseff (PT), movimento que ainda gera debates internos. A entrada de Heloísa no partido, em 2015, marcou a ascensão da ala mais à esquerda, consolidada com sua eleição como porta-voz em 2021.

A mais recente derrota do grupo de Marina acirra a disputa interna e confirma o predomínio atual da ala liderada por Heloísa Helena na condução política da Rede Sustentabilidade.

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil


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