Somente “peixes pequenos” foram presos após a invasão às sedes dos três Poderes. A expectativa é que os ‘tubarões” —financiadores, militares e mentores dos atos golpistas— sejam responsabilizados somente agora, com a chegada de Paulo Gonet à PGR.

Deputados do PT dizem que a Polícia Federal fará operações contra nomes de peso a partir deste mês. Eles também esperam que o inquérito seja concluído em curto prazo.

Os alvos seriam financiadores, mentores e militares, trazendo para a investigação pessoas com maior importância política e econômica. Até o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve estar entre os alvos, avalia a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann.

Um realinhamento político em Brasília coincide com a expectativa de um novo ritmo nas investigações. Esta movimentação começou no ano passado.

Blindagem de Aras

Em setembro de 2023, terminou o mandato de Augusto Aras na chefia da PGR (Procuradoria-Geral da República). Ele deixou o cargo desgastado pela pecha de “engavetador” de processos contra Bolsonaro, com quem era alinhado. Aras nunca foi um dos procuradores mais destacados do Ministério Público Federal, mas virou chefe graças a uma escolha pessoal de Bolsonaro.

Dentro da PF, havia o entendimento de que Aras dificultaria operações contra aliados do ex-presidente. Por este motivo, ações de maior repercussão foram adiadas para depois de sua saída, segundo apurou o UOL.

O sistema jurídico contém formas de driblar a blindagem imposta por Aras, mas impõe um custo político. O ministro do STF Alexandre de Moraes precisava contrariar pareceres técnico da PGR para atender aos pedidos de investigação da PF.

Este movimento fazia a oposição reclamar de perseguição política por parte do STF e alimentava esse tipo de narrativa nas redes sociais.

Nova era com Gonet

A expectativa com a entrada de Gonet é de um procurador sem compromissos com Bolsonaro e que remova amarras das apurações. Ele tomou posse em 18 de dezembro, mas só agora vai dar o tom de sua gestão.

A grande pergunta é qual providência ele dará ao relatório da CPI do 8 de Janeiro. Nesse documento, os parlamentares responsabilizaram Bolsonaro, oito generais e um ex-comandante da Marinha, o almirante Almir Garnier Santos.

Foram atribuídos quatro crimes ao ex-presidente e seu nome aparece 268 vezes no documento. O somatório das penas, em caso de condenação, chega a 29 anos. O deputado Rogério Correia (PT-MG), integrante da CPI, afirma que a comissão também dá respaldo político a denúncias contra militares de alta patente, financiadores e Bolsonaro.

Há um clima para cobrar respostas às invasões com os eventos que marcam um ano da tentativa de golpe de Estado. O entendimento é que a chegada de Gonet se dá num cenário favorável a ações de maior repercussão.

Já a oposição segue afirmando não haver provas contra o ex-presidente. Para eles, uma eventual prisão levará à criação de um mártir político.

Moraes comanda o calendário

As investigações se revelaram mais complexas e demoradas do que o esperado. A delação do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, tornou a apuração mais complicada. Várias declarações e fatos precisavam ser checados.

A palavra final é de Alexandre de Moraes. O ministro do STF é coordenador dos inquéritos e está no comando dos trabalhos. Um alvo do STF afirmou ao UOL que “tudo acontece no tempo do Xandão”. Ele preferiu não se identificar e declarou que a palavra final sempre é de Moraes.

Só peixe pequeno

Até agora, a PGR solicitou abertura de ação penal contra um único suspeito de financiar os atos golpistas. O pedido ocorreu em 14 de dezembro. Pedro Luis Kurunczi é de Londrina (PR) e teria fretado ônibus para pessoas irem acampar em frente à sede do Exército em Brasília.

Houve 2.170 prisões pelas invasões. Todos eram manifestantes que atenderam às convocações para participarem dos atos golpistas:

243 nas sedes dos Poderes em 8 de janeiro;

1.927 no acampamento em frente ao QG do Exército no dia seguinte.

Para a oposição, não há provas das acusações contra Bolsonaro. A ausência de financiadores e organizadores presos seriam um reflexo disso, segundo senadores da oposição que conversaram com o UOL.

A responsabilidade pelas invasões é do governo Lula, afirma o senador Magno Malta (PL-ES), que foi vice-presidente da CPI do 8 de Janeiro. Ele justificou que houve alertas dos serviços de inteligência e não foram tomadas providências.

Inação de G.Dias foi flagrada em câmeras. Ele acrescentou que o ministro responsável pela proteção do Palácio do Planalto estava no local na hora da invasão e nada fez. Imagens do circuito de segurança mostraram o então ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Gonçalves Dias, inoperante enquanto manifestantes quebravam o Planalto.

O senador Esperidião Amin (PP-SC) reclamou que a CPI não apurou a omissão do governo Lula. Ele ressaltou que não foi permitido ouvir o ministro da Justiça, Flávio Dino, para saber por que a Força Nacional não foi acionada.

Amin ainda criticou o Ministério da Justiça por não fornecer as imagens de seu circuito interno de segurança. Também havia mais de 200 homens na sede do Ministério da Justiça e eles não foram chamados.


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