Com a previsão da posse de Donald Trump nos Estados Unidos em janeiro, apoiadores bolsonaristas vislumbram possíveis retaliações às autoridades brasileiras por parte do novo governo americano. Líderes da direita, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), têm demonstrado interesse em atuar como observadores da administração Trump no Brasil.

A expectativa de represálias gira em torno de dois episódios envolvendo aliados de Trump e bolsonaristas que foram alvos do Supremo Tribunal Federal (STF) e do ministro Alexandre de Moraes. Em setembro de 2021, Jason Miller, ex-porta-voz de Trump e fundador da rede social Gettr, foi abordado pela Polícia Federal no aeroporto de Brasília, como parte de uma investigação do STF sobre as “milícias digitais”. Em outro caso, em fevereiro de 2024, Filipe Martins, ex-assessor de Jair Bolsonaro, foi preso durante a Operação Tempus Veritatis, que apurava uma suposta tentativa de golpe de Estado ligada ao governo anterior. Embora seu nome constasse na lista de passageiros de um voo presidencial para Orlando em dezembro de 2022, Martins afirma que não realizou a viagem, permanecendo no Brasil.

Eduardo Bolsonaro recentemente trouxe o caso de Martins à tona, alegando, sem provas, que houve uma falsificação de registros de imigração para incriminá-lo. O deputado sugeriu que o novo Congresso americano, agora dominado por republicanos pró-Trump, pode investigar essa questão e até convocar testemunhas para esclarecer os detalhes do caso.

Outro nome citado pela direita bolsonarista como possível aliado é o bilionário Elon Musk, dono do X (antigo Twitter) e da Starlink. Musk se tornou um crítico do STF após receber pedidos de Moraes para bloquear contas suspeitas de desinformação. Em uma entrevista recente, J. D. Vance, vice de Trump, afirmou que o governo americano deve revidar tentativas de censura na internet, mencionando o Brasil como exemplo. O vice de Trump questionou o respeito aos “valores americanos”, incluindo a liberdade de expressão, em referência a ações judiciais brasileiras contra perfis de extrema-direita na rede social.

Durante as eleições nos EUA, Eduardo Bolsonaro e outros apoiadores de Bolsonaro, como o ex-ministro Gilson Machado e o vereador Gilson Machado Filho, acompanharam a apuração dos votos na casa de Trump, em Mar-a-Lago. Durante a visita, eles mostraram a assessores de Trump uma declaração de Lula comparando o líder republicano ao nazismo, na tentativa de fortalecer a imagem negativa do atual governo brasileiro entre os republicanos. Machado Filho chegou a declarar que “Eduardo vai trabalhar com os republicanos para questionar a inelegibilidade de Bolsonaro”, sugerindo pressão externa sobre as autoridades brasileiras.

Deputados bolsonaristas como Carla Zambelli (PL-SP), Júlia Zanatta (PL-SC) e Ricardo Salles (PL-SP) estão otimistas sobre os possíveis efeitos de uma nova administração Trump no Brasil. Eles acreditam que a postura do governo americano pode influenciar temas como a inelegibilidade de Bolsonaro e as investigações sobre os atos de 8 de janeiro. Zambelli declarou esperar sanções americanas contra Moraes, como a retirada de seu visto de entrada nos EUA.

Apesar das expectativas da direita, aliados próximos de Bolsonaro consultados pelo Estadão expressam ceticismo sobre a possibilidade de reverter a inelegibilidade do ex-presidente, imposta pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em junho de 2023. Bolsonaro foi condenado a oito anos de inelegibilidade por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação em uma reunião com embaixadores em que atacou o sistema eleitoral.

 


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