Um mês após a segunda troca de marqueteiro, a campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passa por uma mudança na estratégia de comunicação. Sob o comando de Duda Lima, terceiro profissional a assumir a área, a equipe tenta aproximar o candidato da direita e reduzir divergências dentro do bolsonarismo.
A nova orientação prioriza temas como segurança pública, combate ao crime organizado, soberania nacional e críticas mais diretas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A campanha também resgata referências da trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, em uma tentativa de apresentar a candidatura como continuidade do projeto político que levou o grupo ao Palácio do Planalto.
Um dos exemplos dessa mudança são as lives semanais realizadas por Flávio. O formato reproduz uma prática adotada por Jair Bolsonaro durante seu governo, quando o então presidente fazia transmissões para comentar assuntos políticos, decisões administrativas e temas de interesse de seus apoiadores.
O horário eleitoral também passou a utilizar imagens das campanhas presidenciais de 2018 e 2022. A estratégia busca reforçar a ligação entre pai e filho e apresentar Flávio ao eleitorado bolsonarista como herdeiro do movimento político criado pelo ex-presidente.
A mudança ocorre depois de uma fase marcada por críticas internas à comunicação. Integrantes da campanha avaliavam que Flávio aparecia como um candidato “moderado demais”, com mensagens pouco conectadas e dificuldade para estabelecer uma identidade política clara.
Antes de Duda Lima, os publicitários Eduardo Fischer e Alexandre Oltramari comandaram a comunicação por pouco mais de dois meses. Alguns episódios daquele período passaram a ser usados internamente como exemplos de uma estratégia considerada distante dos símbolos tradicionais da direita.
Na preparação da convenção que oficializou Flávio como candidato, no fim de julho, Fischer e Oltramari sugeriram que os participantes vestissem azul para criar uma espécie de “onda azul” e transformar a cor em uma marca visual do evento.
A proposta foi acompanhada por outra ideia que causou estranhamento entre setores da campanha: utilizar a música “Azul da Cor do Mar”, de Tim Maia. A sugestão foi interpretada por aliados como pouco conectada aos códigos e referências que mobilizam a base bolsonarista.
Com a chegada de Duda Lima, a orientação passou a ser recuperar elementos reconhecidos pelo eleitor de direita, mas sem transformar Flávio em uma simples reprodução do pai. A intenção é apresentar o senador como continuidade do bolsonarismo, ao mesmo tempo em que se busca construir uma identidade própria para a candidatura.
Na cúpula do PL, o desafio é fazer com que o eleitor identificado como “bolsonarista raiz” se envolva integralmente com a campanha e reconheça Flávio como o principal representante do grupo na disputa presidencial.
Oltramari contesta, porém, a avaliação de que sua passagem pela campanha tenha afastado Flávio do bolsonarismo. Segundo o publicitário, quando assumiu a comunicação, o candidato tinha aproximadamente sete pontos de desvantagem para Lula em uma simulação de segundo turno. Após os cerca de 60 dias em que esteve à frente da área, afirma, a disputa voltou à situação de empate técnico.
“Dizer que a campanha estava dissociada do bolsonarismo é uma mentira factual. Os fatos comprovam o contrário”, afirmou Oltramari. Fischer também foi procurado, mas não comentou as críticas.
Outro ponto que provocou divergências durante a passagem da dupla pela campanha foi o uso de inteligência artificial. Em uma das peças, Flávio aparecia como um herói pilotando um caça, em uma estética inspirada em filmes de ação. A produção ganhou novos episódios e chegou a ser apresentada como uma espécie de série nas redes sociais do senador.
A iniciativa, contudo, gerou questionamentos dentro da própria equipe. Alguns auxiliares consideraram que o conteúdo não correspondia à imagem que a campanha pretendia consolidar para Flávio.
A inteligência artificial também foi utilizada em uma peça inspirada em um vídeo sobre Neymar que havia viralizado durante uma Copa do Mundo. No material, Flávio aparecia dialogando com diferentes versões de si mesmo, representando momentos distintos de sua vida. A estratégia também não obteve a repercussão esperada entre integrantes da equipe.
Com Duda Lima, esse tipo de produção perdeu espaço na estratégia central. O novo marqueteiro não proibiu completamente o uso de inteligência artificial e chegou a produzir uma imagem de Flávio usando apenas uma sunga, mas o recurso deixou de ser tratado como uma aposta recorrente da comunicação.
Outra mudança diz respeito à forma de atuação do candidato diante das câmeras. A nova equipe defende uma comunicação menos roteirizada e mais espontânea, especialmente nas redes sociais.
Segundo interlocutores, Duda Lima não costuma trabalhar com teleprompter e considera que o recurso, tradicionalmente associado à televisão, perdeu importância em uma campanha na qual os candidatos precisam se comunicar diretamente pelas plataformas digitais.
A ideia é estabelecer uma direção estratégica sem determinar previamente cada frase ou reação do candidato. A equipe busca preservar uma aparência de espontaneidade e permitir que Flávio se comunique de maneira mais natural com seus apoiadores.
Um exemplo ocorreu no lançamento da campanha, realizado há cerca de duas semanas em Copacabana, no Rio de Janeiro. No dia anterior ao evento, Flávio e Duda se reuniram para definir o mote do discurso. A preparação, porém, não resultou em um roteiro fechado.
Desde que assumiu a função, Duda mantém contato frequente com Flávio para discutir cenários políticos, posicionamentos e a forma como o candidato deverá se apresentar aos eleitores. Sua atuação está mais concentrada na estratégia do que na operação cotidiana da comunicação.
A relação direta entre candidato e marqueteiro é considerada normal em campanhas eleitorais, mas auxiliares que acompanham Flávio desde o início afirmam que o modelo não era adotado da mesma maneira pelos profissionais que ocuparam anteriormente a função.
Antes das mudanças, Marcello Lopes, conhecido como Marcellão, havia sido responsável pela comunicação durante a pré-campanha. Ele havia combinado com Flávio que passaria a trabalhar em tempo integral a partir de junho, mas deixou a equipe depois de enfrentar desgaste interno.
A saída ocorreu após a crise envolvendo o projeto do filme “Dark Horse”, uma biografia de Jair Bolsonaro. Aliados de Flávio criticaram a reação da campanha à divulgação de um áudio no qual o senador pedia dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar a produção.
Marcellão, porém, avalia que seu trabalho continua influenciando a campanha. “Tenho uma relação muito boa com a equipe e fico feliz de ver que conceitos e peças desenvolvidos naquele período continuam presentes na campanha”, afirmou.
A escolha de Duda Lima também tem dimensão política dentro do PL. Próximo do presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, o publicitário já trabalhou na legenda e foi responsável pela coordenação da campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022.
Sua chegada ocorreu em meio a uma disputa interna sobre o comando da comunicação. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, havia participado da escolha de Fischer para a função.
A avaliação de dirigentes do partido é que Duda possui maior capacidade para alinhar a comunicação de Flávio à identidade política do PL e reduzir as diferenças entre setores da campanha.
Presidente do PL no Rio de Janeiro e aliado próximo de Valdemar, o deputado Altineu Côrtes considera que a mudança já produziu efeitos positivos.
“O Duda consegue melhor que ninguém traduzir os valores do PL em comunicação. A campanha está melhor, sem dúvidas. Ele conseguiu arrumar tudo e a campanha agora está conseguindo mobilizar as pessoas. A imagem antes estava desencontrada”, afirmou.
A nova estratégia, portanto, combina maior identificação com o bolsonarismo, reforço de pautas de segurança e soberania e uma comunicação considerada mais direta. O objetivo é consolidar Flávio entre os eleitores de direita sem impedir que o senador construa uma imagem própria para a disputa presidencial.
A campanha tenta, assim, superar o período de indefinição vivido nos primeiros meses e entrar na reta decisiva da eleição com uma mensagem mais uniforme. Para os aliados de Flávio, a principal tarefa de Duda Lima será transformar a proximidade com o legado de Jair Bolsonaro em uma candidatura capaz de mobilizar a base e, ao mesmo tempo, ampliar seu alcance eleitoral.
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