Minas Gerais deve alcançar em 2025 um recorde no número de transplantes realizados. Apenas no primeiro semestre, o estado já registrou um crescimento de 8% em relação ao mesmo período do ano passado, considerado um dos melhores desde a pandemia. A previsão do MG Transplantes, coordenado pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), é superar a marca de dois mil procedimentos neste ano, resultado de investimentos em capacitação de equipes, fortalecimento das comissões hospitalares e avanços logísticos.
Segundo o diretor do MG Transplantes, Omar Lopes Cançado, a meta é ampliar em pelo menos 10% as doações anualmente. “Este crescimento mostra que estamos no caminho certo. Nosso objetivo em 2025 é superar o ano passado, que foi histórico para Minas, com mais de 2 mil transplantes realizados”, afirmou.
A doação de órgãos é, muitas vezes, a chance de uma nova vida. Essa foi a realidade do bancário Itamar Borges Junior, de 45 anos, que conviveu por anos com complicações do diabetes. A partir de 2011, passou a enfrentar perda parcial da visão, problemas renais e sessões de hemodiálise. Em 2014, recebeu um transplante de rim e pâncreas no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte. “Uma vontade que tinha era sair das agulhas de hemodiálise e insulina para poder viajar sem amarras. Hoje dá para ir à praia sem preocupações e, se pudesse, até moraria lá”, contou.
Após a cirurgia, Itamar formou-se em administração, voltou ao trabalho, constituiu família e retomou projetos interrompidos. “Depois do transplante a vida ficou quase normal. Voltei a viver com esperança”, relatou, destacando a gratidão à família do doador. “Mesmo em meio à perda, salvaram minha vida”.
Para sustentar os avanços, o MG Transplantes intensificou treinamentos em todas as etapas do processo. Cursos foram oferecidos a médicos para diagnóstico de morte encefálica e a equipes multiprofissionais para aprimorar a comunicação em situações críticas, como o diálogo com familiares sobre a autorização da doação. Em março, profissionais foram capacitados no procedimento de enucleação de córneas, em parceria com a Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma). “Conseguimos captações de córneas em regiões onde nunca havíamos conseguido antes”, ressaltou Omar.
Os resultados já são visíveis. Em 2024, foram 980 transplantes de córneas. Em 2025, somente no primeiro semestre, o número já se aproxima de 700, e a expectativa é encerrar o ano com 1.200 procedimentos — crescimento superior a 20%.
Outra inovação importante foi a parceria firmada em janeiro com consórcios municipais de saúde para exames complementares de confirmação de morte encefálica. “A medida permitiu que hospitais sem estrutura própria passassem a contar com esse suporte, especialmente no interior do estado”, explicou o diretor. A iniciativa já viabilizou mais de 60 transplantes em 2025, ampliando o alcance da rede.
“Além das córneas, os transplantes de órgãos também devem crescer, graças à combinação entre melhor logística, capacitação e estruturação das equipes de saúde em todo o estado”, projetou Omar.
Apesar dos avanços, o grande desafio segue sendo a recusa familiar. Hoje, cerca de 45% das famílias não autorizam a doação. Para enfrentar o problema, campanhas como o Setembro Verde são essenciais. “Se as pessoas falarem em vida que são doadores, é muito mais fácil para a família tomar a decisão caso aconteça o diagnóstico”, concluiu o diretor do MG Transplantes.
Foto: Francis Campelo

